Decidi fazer um mural de fotos
Metade dos quadros em combustão eterna, uma imagem da minha garganta fechando enquanto um grito abafado tenta sair e é preso por umas mãozinhas que mandam eu me comportar direito, umas mãozinhas esqueléticas, que não pesam nada, mas que beliscam a parte de dentro dos meus órgãos e fazem eu me sentir fraca, toda feita de músculos sem treinamento algum, se comunicam comigo em libras dizendo que falo demais, penso demais, me desconecto demais, como demais; a próxima foto em chames é um ortopedista saindo do consultório gritando comigo na rua e falando pra pelo amor de deus minha mãe me comprar um colete pra ajeitar minha postura logo, daqui a pouco começo a andar feito uma senhorinha de tanto que encolho os ombros, imediatamente tento descerrar meu maxilar, relaxar os ombros, me pergunto se um dia meus ombros já foram menos nervosos, me pergunto se minha mãe ainda se importa com meu nervoso ou se ela concluiu que sou esperta demais pra me preocupar tanto e a ansiedade é só um maneirismo dos inteligentes, me pergunto se o médico me acha irresponsável só de olhar meus olhos grandes e se ele enxerga um pouco de mim sendo esperta do jeito que minha mãe vê nos meus olhos grandes, ao menos um relance disso que ela jura existir dentro de mim.
A outra metade é uma floresta que tenho medo de envenenar com meus dedos de fósforos.