Esse texto estava nos meus rascunhos faz um tempão
Quis berrar e urrar sobre chuva caindo na hora errada e a cidade feita 90% de buracos e meus pés tão finos na imprópria sapatilha da marca Sapatos Para Garotas Fanáticas Por Sentirem Cada Pedra E Desnível No Caminho Do Trabalho Para Casa, quis bradar a contra natureza, genética, moda, política, redes sociais; olhei fixamente pra a rua e soltei um arzinho pelo nariz, aquele arzinho típico de quem está completamente fulo da vida; o fiz enquanto pensava numa fórmula prática para evaporar no meio dos aerossóis soltos por gotas de chuva e passar ao menos um dia em estado químico indefinido; quero berrar por lembrar de decisões tão arriscadas quanto sempre fadadas a queda; sinto minha memória como uma máquina de ressentimento, de receio, receio de imaginar algo trapalhão, algo tão tragicomicamente millennial feito com minha própria assinatura torta, assinado com minha língua tão desesperadamente sedenta e assim me perguntei se estou hidratada, realmente hidratada, se minhas refeições são balanceadas ou se são somente minhas unhas, se passei tempo demais sem tomar água; sinto que meu esforço se resume a resistir sonhar
acordada
com você. O tempo
todo e de forma tão surreal que nem sei mais como é deitar e imaginar qualquer outra coisa a não ser sua mão e sua boca e você irresistivelmente me deixando beijar cada nó dos seus dedos e cada canto da sua boca em diversos ângulos incluindo de ponta cabeça e
não aguento mais.
Não aguento mais.
Bebi um golinho d’água. Passou.
