Marcela não consegue dirigir nervosa

Não dava para ver o vermelho do sinal, o ônibus na frente de Marcela tapava a luz estrategicamente. O olhar fixo no anúncio amarelo falando sobre uma nova escolinha no bairro fez a visão ficar turva, embaçada.

O coletivo mexeu, Marcela lembrou que precisava chegar logo, de uma vez por todas. Segurou o pé, com força, até o final do pedal, soltou devagarinho e esperou ver o capô subindo. Não subiu.

Um dos piores momentos da vida de um adolescente (dos responsáveis, ao menos) é tentar entender como funciona “sentir” um carro na hora de soltar o freio de mão em uma subida, acelerando, sem deixar descer, sem deixar morrer.

A vontade era de sair do carro e comprar uma passagem só de ida para algum lugar como o Vietnã, a Nova Zelândia ou o Jaçanã, que tem uma avenida parecida com aquelas de praias, o bairro todo quase não tem prédio nenhum e é um tanto plano.

Marcela tinha um compromisso, no entanto, e o jeito foi lidar com virar a chave o mais rápido possível e tentar outra vez, com o pé tremendo e ouvindo o som nervoso da buzina rasgando o ar e fazendo os ossos congelarem.

O celular vibrou, o pé subiu no pedal por falta de força e excesso de nervosismo, vibrou a segunda vez, a mão fez como quando o pé pisa em falso no degrau e não alcançou o freio de mão, vibrou a terceira vez, o rosto ficou gelado por dentro e quente por fora, vibrou a quarta vez, o carro caiu, vibrou a quinta vez, Marcela chorou.

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