Sobre Brothers: A Tale of Two Sons, solidao e paixoes adolescentes

Our two souls therefore which are one,
Though I must go, endure not yet
A breach, but an expansion,
Like gold to airy thinness beat.

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Existe um tipo de paixão bem particular da adolescência — você encontra uma pessoa perfeita e se desespera por nunca ter sentido isso antes. Você sai do caminho da maturidade e vai na contra-mão.

Minha irma passou por isso. Quando o primeiro amor dela deu errado eu ainda era muito nova pra entender ou aconselhar. A bem da verdade, eu só ficava chateada com ela batendo o telefone de madrugada e sem conseguir acordar pro trabalho depois de passar a noite chorando, mas não sabia direito o que falar ou como guiar. Só queria que ela terminasse logo e começasse a ser feliz de novo.

Quando chegou minha vez de entrar no loop de burrices ela estava lá pra mim.

Aconteceu comigo quando eu tinha uns 20 anos, por aí. Lembro da minha irma sentando na minha cama, com calma, cheia de dedos, sabendo, depois de ter sido minha irma durante a vida toda, minha propensão a chorar copiosamente quando fico sentimental demais.

Ela explicou que meus problemas não eram só meus — me explicou que estar triste por conta de um coração quebrado é normal, mas também não era pra se isolar no quarto sem buscar ajuda de ninguém.

Fiz viagens interestaduais chorando enquanto me prometia nunca mais tentar de novo, pedi pra melhores amigos não deixarem mais eu falar sobre, me tratei com psicologo, tomei remédio pra dormir. Ela estava do meu lado. Doeu menos do que sozinha.

Em uma noite em específica, assisti TV chorando até pegar no sono, olhando o celular em uma rotina cruel e um sem-fim de tristeza. Dormi, finalmente, umas 5 horas da manha.

Acordei uma hora depois, com a minha irma gritando em desespero.

Levantei da cama e encontrei minha tia. Meu pai tinha morrido. Meu primo me segurou no chão até eu perder o ar de tanto chorar e gritar.

Minha irma me abracou depois de um tempo, me abracou com ossos fracos e quase sem conseguir olhar no meu rosto, vermelha, inchada.

Depois de algumas semanas me bateu um alívio, algo que me doí muito admitir e reflete a parte mais feia dentro de mim: eu estava devastada e triste, não tinha espaço pra ficar triste por outro motivo ou por outro alguém, tudo parecia menor frente a isso. Ao menos o amor tinha passado.

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Esses dias joguei Brothers: A Tale of Two Sons. Você controla dois irmãos no jogo, com o analógico esquerdo para o mais velho e o direito para o mais novo. A história é sobre buscar remédio para seu pai doente. Em uma cena específica, o mais velho ignora o mais novo e segue uma garota pra dentro de uma caverna.

Até então, a narração toda do jogo te mostra a diferença clara (e clássica em qualquer família) dos dois: o mais velho pedindo instruções e direções em todas interações, o mais novo brincando, colocando a língua pra fora e equilibrando vassouras igual o Chaves, em contraponto.

Antes de entrar na caverna, o mais novo bate o pé, puxa o mais velho, aponta para outro lado. O jogo não tem falas, o dialeto dos personagens é uma linguagem própria, meio gutural.

Depois de uma jornada de umas duas horas controlando os dois personagens, você precisa lidar com o peso da paixão adolescente: o mais velho,constantemente seguindo o caminho correto, protegendo e ajudando todos pela frente, agora entra na contra-mão como um motorista dorminhoco que se rende ao sonho relaxante e e não vê a luz do caminhão.

Como você culpa alguém tao esforçado e correto?

Você tá nos trilhos, o peso de ajudar tudo e todos nos seus ombros; uma garota morena de vestido te beija estalado na bochecha.

Você pega o atalho ou ignora que alguém acabou de encostar no cristal escondido dentro do seu coração inchado e pesado?

Após seguir a paixão desenfreada, a garota vira uma aranha e você precisa impedir, com os dois protagonistas juntos, que ela mate o irmão mais velho.

Depois disso você nunca mais move o analógico esquerdo.

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No começo do jogo o mais novo está chorando na lápide da mãe, lembrando como a viu se afogando enquanto ele desesperava, sem conseguir salva-la.

O mais novo tem medo de água e precisa ir de cavalinho no mais velho nas partes que envolvem nadar.

Em um momento específico desses trechos, os dois acabam sendo pegos em uma maré desfavorável e se desencontram.

Você precisa fazer com que o mais novo, sozinho, chegue até os bracos do mais velho.

Até então os quebra-cabeças do jogo eram simples: você precisava mover uma alavanca no momento certo ou ficar segurando um botão por tempo o bastante. A punição era morte apenas se você se descuidasse de verdade.

Ao tentar pegar um galho solto, a única opção disponível, você percebe que a punição é a morte. Ao tentar escapar de galhos vivos que querem derrubar você e aparecem de surpresa, você descobre, novamente, que a punição é a morte.

Ao ser derrubado de vez, apos morrer uma dezena de vezes com o irmão mais novo, você cai num lago e perde a consciência, entrando no pesadelo mais terrível: o pai morto e a mãe, em uma forma gigantesca, morta, com os olhos abertos. O mais velho te batendo, sem dó, te culpando por tudo.

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A história de Brothers é trágica. A da maior parte dos primeiros amores também.

Essas paixões com um fundo colérico de desprezo ao resto da sua vida servem, ao serem superadas, pra mostrar que você não está sozinho. Em nível macro, você é parte da humanidade. Em nível micro, minha irma me ama e me cuida.

Nenhum homem é uma ilha.

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If they be two, they are two so
As stiff twin compasses are two,
Thy soul the fixt foot, makes no show
To move, but doth, if the other do.
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