Um terrível conto preventivo sobre os perigos de se envolver com pessoas comprometidas

I II III

Querido diário,

Fui demitida hoje. O que me sobrou foi passar o resto do dia em casa e esperar um e-mail do centro social; uma proposta para ter um trabalho menos solitário, com sorte. É minha segunda demissão do ano.

O sistema diz que é proibido mandar funcionários embora caso eles não compareçam aos turnos extras quando chamados, mas as penalidades se tornam mais rígidas caso você não colabore. Trabalhar nos corredores vazios e interagir com os escassos clientes causa a mesma sensação de olhar para as estrelas deitada na grama. Você se perde nos músculos da boca de uma mãe desatenta, os lábios abrindo e fechando rispidamente enquanto ela cisma com a porcentagem de sódio nos alimentos infantis; você se perde enquanto ouve o som das caixas de cereais batendo no chão e o barulho da espada de plástico do filho com ADHD derrubando toda e qualquer embalagem pela frente, sem fazer diferenciação. Os sons reais se tornam ecos e sua atenção se prende nas instruções repassadas pelo Turk nos fones de ouvido; você contrai o rosto e move as sobrancelhas para cima e para baixo como se estivesse raciocinando as palavras e ponderações ditas por aquela boca perfeitamente vermelha, macia e delineada, disfarçando a necessidade de ganhar tempo para conseguir ouvir todas as palavras da ordem emanada em seus ouvidos; você percebe o contraste da língua que aparece de forma ritmada entre as fileiras brancas alinhadas e brilhantes com o olhar estreito, rígido e franzido, o contraste do hálito com cheiro de líquido para matar toda e qualquer bactéria bucal pela frente, sem fazer diferenciação, com o barulho da espada de plástico entortando no meio ao entrar em contato com uma imponente caixa de cereal falsa de tamanho big, feita de madeira; você responde repetindo as palavras ditas quase dentro do seu cérebro, repetindo as frases parcimoniosas e quentes analisadas por diversos softwares especializados em psicologia da simpatia, sorri seu melhor sorriso humano com seus dentes amarelados e ganha o desdém de quem lê sua vida como a de um porco que é contra a política de abate — uma guerra pela probabilidade de pedras nos rins causada por sódio.

É tudo otimizado de forma perfeita; tudo precisa correr bem, todos os dias. Durante o último mês, uma criança derrubou uma garrafa decorativa de vidro e escondeu os cacos no bolso. Depois ela passou na ala de material escolar, arrancou as páginas de um livro infantil e trocou o recheio formado por páginas pelos pedacinhos roubados, comendo a obra como se fosse um hambúrguer. As folhas estavam grudadas com cola animal, colágeno que deve ter sido retirado de um bovino morto. Me perguntei se devia ter gosto de gelatina.

O caso estourou na mídia e achei que serviria para exemplificar o quão perigoso pode ser usar uma inteligência artificial para guiar mais de 25 funcionários — e como isso refletiria em outras redes de serviços, compostas por mais e mais empregados, resultando em mais e mais pessoas cortando suas próprias gargantas por dentro.

O descontentamento com o Turk parece estar reservado à quem trabalha diretamente com ele. É um artifício ótimo para as empresas, é uma ferramenta de uniformização do mercado, é uma conquista do mundo pós-recessão. O reflexo negativo dos corpos estranhos no esôfago da garotinha bateu no questionamento sobre a decadente e quase póstuma presença humana no mercado de serviços. Caso fossem robôs, provavelmente teriam se preparado melhor para primeiros socorros ou para impedir que materiais de vidro estivessem ao alcance das crianças.

Por sorte o caso não aconteceu em um dos meus turnos, mas a demissão imediata do Carlos não foi o bastante, mesmo depois de ele ter tentado abraçar a mãe. Ele foi rechaçado por outros funcionários do mercado, por jornais, na Internet e na vida real, normalmente por jovens irritados com o desempenho abaixo do esperado — afinal de contas, se Carlos não trabalha direito, o lobby para retirar de vez o assistencialismo humano na área de serviços fica cada vez mais fácil. O argumento da insubstituível criatividade das consciências humanas vai caindo aos poucos, sendo quase visto como ilusório e antiquado, quase visto como desespero, os jovens que se contentem com a morte.