ANA BEATRIZ

Ana Beatriz é uma menina discreta e elegante. Ana Beatriz é independente, forte e confiante, está sempre resolvendo as suas coisas sozinhas e tem as rédeas da sua vida nas mãos.
Ana Beatriz vive numa cidade grande, sempre correndo pra lá e pra cá para dar conta de seus compromissos profissionais e pessoais, a agenda de Ana Beatriz é digna de um CEO de multinacional. Ana Beatriz gerencia sua vida atribulada com maestria.
Num dia de calor intenso, Ana Beatriz escolhe um vestido leve no armário e sai para trabalhar. Ana Beatriz nem vê as horas passarem quando se dá conta que esqueceu de almoçar. Moça que cuida da saúde do bem estar, Ana Beatriz larga tudo imediatamente e sai em direção ao restaurante que frequenta próximo ao trabalho, a intensão é chegar lá a tempo de não pegar a comida fria e revirada no buffet. Antes de deixar o escritório, Ana Beatriz lembra-se que deveria levar algo aos correios. Algo que certamente não poderia ser enviado por e-mail ou via qualquer outra tecnologia, já que Ana Beatriz é muito familiarizada com todas elas. Ela apanha o envelope na gaveta e sai andando depressa pela rua.
Ana Beatriz tem um objetivo: almoçar e ir aos correios em apenas uma hora para chegar a tempo da reunião que a espera às 15:30.
Tarefa concluída, 15:18 e Ana Beatriz já está caminhando apressada em direção ao escritório com seu objetivo prestes a ser atingido. Ana Beatriz está com a cabeça cheia de pensamentos que tentam acompanhar o ritmo frenético da sua vida na cidade grande.
Ao atravessar a última rua antes de chegar ao escritório, Ana Beatriz ouve alguém chamá-la insistentemente. Ela emerge de seus pensamentos profundos para identificar se a voz lhe é familiar ou não, apesar de não ser, seu tom aflito a faz olhar pra trás:
– Oi moça! Vem aqui! — assustada com a audácia do estranho ao volante dentro do carro do outro lado da rua, Ana Beatriz recusa o convite.
– Desculpa moça, mas eu acho mesmo que você deveria vir aqui! Por favor, chegue mais perto, preciso lhe falar algo! — insiste o rapaz já com o tronco pra fora da janela do automóvel.
– Pode falar daí, estou te ouvindo daqui — embora perplexa, Ana Beatriz está curiosa para saber do que se trata já que o rapaz não lhe parece um maluco, tarado ou profano.
– Olha, eu acho que você deveria vir aqui perto. Você vai entender porque eu não posso gritar o que eu tenho para falar.
Ana Beatriz enche o peito, coloca as mãos na cintura e afirma com a voz firme:
– Estou ouvindo daqui. Você pode falar ou eu vou embora.
Convencido, o homem suspira, vira os olhos e diz em volume moderado:
– Sua calcinha está aparecendo.
Ana Beatriz imediata e instintivamente coloca as mãos para trás e sente o vazio que deveria estar preenchido pela barra do vestido que por sua vez está todo embolado, revelando mais do que deveria à toda vizinhança. Com a destreza de um maestro, Ana Beatriz desfaz o embrulho e retoma seu caminho elegantemente, sem nem mesmo olhar pra trás. Passados alguns segundos do embaraço, Ana Beatriz ri de si mesma. Ela sabe que rir de si mesma é muitas vezes o que resta.
Ana Beatriz sorri envergonhada olhando para o piso do elevador que sobre até o quarto andar do prédio de escritórios, ao entrar na sala, ela senta em sua mesa e vai logo checando a caixa de entrada, não há mais tempo pra brincadeiras.
Ana Beatriz levanta-se, pega seu celular, notebook e uma caneta, checa o vestido com as mãos e no reflexo da janela a sua frente, certa de que tudo está em ordem parte para a reunião, hoje Ana Beatriz irá comandar a apresentação dos resultados, logo, prefere certificar-se de que ninguém verá qualquer outro conteúdo além daquele que ela quer mostrar.
Originally published at cronicascotidianas.wordpress.com on February 5, 2016.