DITA CRÔNICA

Um dia desses estava assistindo a um filme que se passava no futuro. Uma das personagens da história era escritora, e numa determinada cena ela aparece escrevendo seu livro num dispositivo semelhante a um tablet. Um tablet ultramoderno. O processo acontecia via comando de voz. Ou seja, ela falava e as palavras apareciam na tela do aparelho. Fiquei transtornada.

Depois de alguns dias eu ainda estava pensando naquilo tudo. Não era apenas um detalhe o fato de a personagem ser escritora, era algo determinante. E ela autointitulava-se escritora o tempo todo. Amiga, você não é escritora, pensei. Você não está escrevendo, você está falando e uma máquina está transformando os sons que você emite em palavra, frases, parágrafos e assim por diante. Como disse, fiquei trans-tornada.

Eu sou de uma geração que viu muitas coisas mudarem no que se refere à tecnologia e comportamento. Aliás, adoro essa frase “sou de uma geração”. Já sou velha o suficiente para me colocar numa geração diferente de quem veio depois de mim e suficientemente jovem para que isso não me aborreça.

Voltando… Eu vivi num tempo onde as coisas eram super diferentes do que são hoje. Eu levei rolos de filme para revelar na Fotótica. Eu usava telefone fixo para falar com as minhas amigas da escola, eu ligava pra minha mãe do orelhão, depois disso eu tive um Nokia tijolão. Eu usei internet discada, computador com monitor de tubo, eu já digitei no MS-DOS! Gente, pelo amor de Deus, MS-DOS!

Ou seja, teoricamente, as transformações em decorrência da tecnologia deveriam ser de fácil aceitação para mim. Por que então eu não podia conceber a ideia de “escrever” ditando palavras a um computador?

Eu comecei a viajar num futuro onde escrever utilizando um notebook seja tão vintage quanto hoje é escrever numa Olivetti Valentine. Já me imaginei uma coroa dessas super estilosas, com cabelos assumidamente brancos, bijuterias chamativas e óculos de armação grande, eu seria a sensação dos jovens da família. “Minha avó escreve num notebook!” diria meu neto adolescente aos seus amigos que iam viver na minha casa para ver tal apetrecho curioso, iam pedir para tocar a tela e digitar palavras aleatórias no teclado que lhes parecerá tão arcaico.

Mas e se eu nem tiver cabelos brancos quando a escrita for algo completamente diferente do que é agora? Sim, pois o futuro hoje chega cada vez mais rápido. Muito mais rápido que chegava no passado. Será que eu serei uma jovem mulher madura que não terá outra alternativa a não ser ditar crônicas para um plasma inteligente?

Eu não posso! Jamais conseguiria! Impossível! Eu preciso escrever com as mãos! Preciso sentir o percurso do pensamento saindo da cabeça, descendo pelos braços até sair pelas pontas dos dedos. Eu preciso poder organizar as ideias na tela, dentro da cabeça elas formam uma balbúrdia! Se tiver que escrever falando, eu vou pifar o dispositivo ainda no primeiro parágrafo.

No meio da minha crise lembrei de ter lido um artigo dizendo como algoritmos já vêm sendo utilizados para desenvolver textos inteiros, e como em pouco tempo, computadores poderão compor histórias, matérias e reportagens com perfeição. Eu ainda nem virei cronista e já estou extinta! Socorro!

Depois de me acalmar, ponderei que as mudanças ocorrem paulatinamente. Não é que um dia eu vou acordar e meu notebook terá sido levado para um antiquário junto com outros objetos ultrapassados como Iphones e PlayStations. Eu não serei, de repente, obrigada por um IA a ditar minha crônica daquela semana. Não. Calma. Todo mundo fica calmo. As formas de comunicação vão mudando, evoluindo, e as pessoas vão explorando novas capacidades e aprendendo novas competências. Pronto. Não é o fim do mundo. Acho.

Afinal, eu gosto das modernidades. E também gosto de ler livros, assistir filmes ou séries que me transportam para anos à frente. Adoro ver aquelas coisas bem futuristas que por enquanto só funcionam na imaginação de quem, ainda no passado, tenta antecipar o futuro.

Mas pensando agora, no presente, eu também gosto de viajar pra trás. Já concluí mais de uma vez que nasci no século errado. Eu ia adorar os anos 70. Tenho certeza que seria uma intelectual metida e bebedora de conhaque caso tivesse vivido nos anos 30. E como aqueles vestidos fabulosos com corseletes valorizando o decote, que se usava entre os séculos XV e XVII, me cairiam bem.

Quando leio as crônicas de Rubem Braga, Machado de Assis e José de Alencar me vejo flanando pelas ruas do Rio de Janeiro, ainda Capital do Brasil, ou fumando um charuto, bebendo um uísque e escrevendo uma crônica sobre a frivolidade da sociedade. Aliás, seria mesmo uma boa ideia já que não havia uma só mulher no cenário literário da época. Pois essa mulher poderia ter sido eu, quem sabe? Quem sabe…

E agora? Que impasse. Tenho um pé no passado e outro no futuro? Será que estou sozinha nessa? Há outros atemporais por aí? Tem mais gente que tem metade das listas e lembretes anotados num papel e o resto no bloco de notas do celular? Aqueles que têm livros na estante e e-books no Kindle, levantem a mão (pode mandar um emoji)! Quem tem playlists com 10567 músicas mas também não tem coragem de jogar os CD’s mais queridos no lixo?

Enquanto não encontro a escadaria mágica de onde partirei à meia noite para o passado ou para o futuro — com todo respeito Woody, mas no meu Meia Noite em Paris a pessoa teria a opção de entrar num Peugeot 184 ou na Millennium Falcon — vou tratar de aproveitar enquanto ainda posso dedilhar meu teclado pré-vintage e observar minhas ideias bagunçadas organizarem-se magicamente na tela LCD do meu notebook.

Vou viver o presente antes que ele se torne o passado e quando chegar a hora de “escrever” uma crônica falando, eu vejo o que faço. Falo. Digo. Dito.