GENTE FINA, ELEGANTE E SINCERA

Somos 7 bilhões e meio de pessoas. Sete BILHÕES e meio de seres humanos espetados na superfície do planeta (refiro-me aos que estão vivos). Se os dados deste site: http://www.worldometers.info/br/ forem verdadeiros, é desesperador ver, em tempo real, o número de nascimentos aumentando enlouquecidamente. Galera está levando a sério o lance do “multiplicai-vos”.

Quando saí da minha zona de conforto, do meu círculo normal de amizades e relacionamentos cotidianos, me dispus a conhecer pessoas novas por onde quer que eu passasse e em todo lugar, até nos mais remotos, tem gente. O estilo de viagem que eu escolhi fazer me proporcionou conhecer pessoas diariamente tendo em vista, por exemplo, que dormi todas as noites acompanhada de pelo menos 4 pessoas estranhas. Não no sentido literal, né? Cada um na sua caminha… eita vocês viu!?

A menos que quisesse ficar sozinha, interagia todo o tempo com tudo quanto é tipo de gente de tudo que é país, cultura, credo, religião, opinião, aparência, hábitos… um carnaval humano que é, para dizer o mínimo, interessantíssimo! Algumas destas pessoas estiveram na minha vida por minutos, algumas por horas, algumas por dias, e às vezes, além daquele momento que dividimos, algumas não significaram lá muita coisa. Mas outras, me marcaram de uma forma que eu não previa! Conheci pessoas interessantes que valem a pena serem citadas e serão lembradas para sempre.

Conheci um francês que era idêntico ao Johnny Depp quando novinho. Sério mesmo, idêntico. E não estou brincando, era tão igual que era assustador. E ele sabia disso, óbvio. O cara era idêntico ao Johnny Depp e ainda falava francês… foi difícil… mas mesmo assim ele era legal. Não tirei uma foto porque, como disse, alguns passam bem rápido e não cabia tirar uma foto dele ou com ele e eu não estava disposta a fazer uma tietagem de famoso cover. Mas não se preocupe, se você ficou curios@, aqui está ele, o Chris:

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Conheci um belga que amava o Brasil enlouquecidamente sem nunca ter estado no país. Um dia falei em português com um brasileiro que estava por perto e ele faltou chorar. Ficava me fazendo perguntas sobre o Brasil e me mostrava fotos do Rio no computador me perguntando se aquilo era de verdade. Doidão. Aproveitei e fiz a maior propaganda. Ah fiz mesmo. Ele passou três dias na cama vestindo uma calça azul clara e uma camiseta branca comendo porcarias assistindo a vídeos no YouTube. Eu saía para passear, passava o dia inteiro fora e quando voltava ele estava no mesmo lugar. E todo dia ele criticava a Europa, me fazia perguntas sobre o Brasil e comia um pacote de bolacha com Fanta. Um belo dia, do nada, ele se levantou, arrumou a mochila, tomou banho (milagre!) e fez check-out do hostel. “Estou indo pra Bogotá” ele me disse. Me deu um abraço e foi embora.

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Fui parar em La Serena no Chile. Lá não tinha muita coisa, mesmo assim eu achei um argentino que tinha largado tudo em Buenos Aires para viajar pela América com pouquíssimo dinheiro. Este cara é com certeza a pessoa de coração mais puro e alegre que eu conheci na vida. Manu era magro e baixinho, tinha os cabelos todos malucos, sem pentear, manchados pelo sol, um sorriso de dia inteiro, largo e muito, muito fácil. Estávamos eu e ele trabalhando no hostel em troca de hospedagem, nosso papel era servir o café da manhã para os hóspedes. Às vezes o pessoal demorava a aparecer então para combater o tédio estabelecemos as “mañanas culturales” quando trocávamos informações e curiosidades sobre nossos países. Ele queria aprender português para um dia chegar ao Brasil. Manu ficou intrigadíssimo ao descobrir que chamamos a primeira refeição do dia de café da manhã. “E se não tiver café”? Perguntou ele assombrado, “ainda assim chama café da manhã?!” Achei aquela dúvida tão inocente e pertinente que gargalhei alto e abracei o Manu. Aprendi que a gente se acostuma com o que nos é familiar, e o quão legal é quando alguém faz você enxergar as coisas comuns do cotidiano a partir de um outro ângulo.

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Em Valparaíso conheci um austríaco que estudava física em espanhol na Universidade daquela cidade. Franz estava sempre feliz, animado e rindo. Era atencioso, prestativo e extremamente educado. Um lorde. Usava roupinhas de estilo aventureiro e bermudas mesmo no frio. Franz cozinhava todas as noites para o pessoal que trabalhava no hostel junto com a gente. Franz, de prontidão, serviu o café da manhã no meu lugar quando eu fiquei doente. Franz me deu um abraço de amigo quando cheguei às 11 horas da noite ofegante de caminhar carregando a mochila a procura do hostel. Franz me pediu para avisá-lo quando eu voltar a visitar a Áustria, ele quer me receber. Às vezes penso se Franz existiu mesmo.

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Conheci um alemão chamado Paul. Não conseguia aceitar que seu nome era Paul e passei a chamá-lo de Strudel. Ele aceitou numa boa e não se irritou quando eu disse que ele não parecia alemão. Strudel era alto, magro e elegante, de cabelos pretos bem cacheadinhos e de certo comprimento que viviam presos num coque no alto da cabeça. Strudel tinha um rosto de traços fortes assim como sua personalidade. Ele estava viajando há meses e iria encontrar o pai na Patagônia. Strudel foi derrubado por uma gripe e ficou emocionado quando eu e uma amiga brasileira lhe preparamos chá quente e suco de laranja.

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Conheci uma brasileira que ia se casar e mudar-se para Londres com o marido. Mas antes disso, ela decidiu viajar sozinha e estudar espanhol. “E o seu noivo?” Todo mundo perguntava assombrado como se por estar noiva ela fosse proibida de viajar sozinha. “Está ótimo!” Ela respondia sorrindo com os olhos verde-esmeralda sem ligar para o que os outros pensavam. Lu sobreviveu ao terremoto em Valparaíso junto comigo, voltou e casou-se com seu príncipe que a esperava no Brasil.

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Conheci um chileno que sonhava em morar na Austrália. Preparou-se para aplicar para um visto australiano concorridíssimo que fica disponível online uma vez por ano com muitos dias de antecedência, mas não pôde completar a inscrição no programa porque a internet na casa do irmão não estava boa. Sebastian não desanimou: “no próximo semestre abre para a Nova Zelândia!”. Um dia eu lhe trouxe uma empanada da rua na hora do almoço e ele agradeceu dizendo: “genial”! Para Sebas tudo que acontecia de bom não era bom, era genial.

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Encontrei no deserto um casal de alemães que trabalhou por um ano recebendo metade do salário para poder viajar por sete meses recebendo dinheiro no ano seguinte. Era um projeto de vida em comum. Nos encontramos novamente no Peru, somos amigos até hoje, eles em Munich e eu por aí.

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Conversei com um americano nascido em Nova Iorque de descendência coreana que nunca havia ido à Coreia, era formado em finanças em Yale e até conversar comigo achava que o Brasil era só a selva amazônica. Ficou espantadíssimo quando disse que São Paulo parecia Nova Iorque e extremamente sem graça quando percebeu o absurdo que tinha dito. Humilde, reconheceu que deveria saber mais a respeito do mundo e prometeu viajar para conhecer o Brasil.

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Se escreve Meike mas se fala Maika. Assim apresentou-se a alemã que havia morado dois anos no Equador e que adorava a América do Sul. Segundo ela, que mora atualmente na Suíça, mesmo com tudo certinho e funcionando bem em seu país, os alemães jamais serão um povo tão feliz quanto os latinos. Com Meike filosofei por horas sobre a vida boiando no mar calmo e tranquilo do Caribe colombiano.

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Uma outra alemã de 23 anos marcou a minha viagem. Nina era tão madura e preparada que deixou o namorado em casa e foi conhecer a América do Sul viajando por seis meses. Mesmo sendo quase 10 anos mais velha que Nina, posso dizer que aprendi mais do que ensinei durante a semana que acabamos passando juntas quando o acaso nos colocou uma no caminho, ou melhor dizendo, no hostel da outra.

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Enquanto vivia a minha vida “normal” no Brasil, ia para Brasília ao menos duas vezes por mês. Depois de deixar meu emprego e as idas à Capital Federal, Brasília foi até mim. Logo no início da minha viagem conheci um casal brasiliense totalmente maluquinho. Juntos eles faziam de trabalho voluntário à brigadeiros gourmet. O pedido de casamento, fruto da criatividade e do amor de Jorge por Ellen, foi um acontecimento que ficou famoso no planalto central! Deu até pra acreditar no amor!

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Machu Picchu definitivamente foi melhor do que a encomenda só porque Rebeca dividiu aquele momento Inca comigo. Mexicana e muito jovem, viajava pela primeira vez para fora de seu país e sozinha, ela transpôs a barreira da minha cara de mau humor no passeio ao Lago Titicaca e me contagiou com a sua alegria e positividade. Trocamos confidências que amigas de 10 anos talvez não troquem, e tudo isso em 5 dias. Cinco dias intensos que não teriam sido os mesmos sem aquela chica muy muy hermosa, oye!

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Não precisei conhecer as 7.418.789.410 (e contando) pessoas do mundo, só algumas como estas e tantas outras que fariam este texto ter 5 giga, para saber como tem gente legal, bacana, gente especial, diferente, gente fina, elegante e sincera por aí. É só abrir os braços e os olhos, elas estão lá!


Originally published at cronicascotidianas.wordpress.com on April 28, 2016.