PRIMEIRA MEMÓRIA

Qual é a sua primeira memória?
Recentemente vi isso num programa de TV. O entrevistador pergunta aos convidados qual é a primeira memória que eles têm. Por se tratarem de pessoas famosas, há toda uma expectativa por parte do público sobre a primeira memória daquela celebridade televisiva. O cara não pode simplesmente responder: “olha, não lembro”.
Pois esta seria a minha resposta. Não sou famosa. Logo, nunca seria convidada para este programa para passar a vergonha de não ter uma primeira memória.
Já os célebres convidados sempre trazem primeiras memórias incríveis, cheias de detalhes e normalmente com cunho emocional, que deixa toda a platéia suspirando “aaawwnnnn”. Já eu, fiquei frustradíssima. Eu não tenho nenhuma memória que possa ser categorizada como primeira.
Depois de assistir pela primeira vez essa rodada de “de volta ao passado” dos famosos, levei dias tentado organizar meu HD mental em busca da minha primeira memória. Dias. Não achei. Ouso dizer que todo mundo tem em seu computador uma pasta com arquivos genéricos, vindos de toda parte, incluindo fotos, screen shots, documentos, PDFs aleatórios, arquivos de Word sem título, planilhas do Excel contendo números sem sentido. Pois foi isso o que encontrei. Uma pasta mental com gigas e gigas de arquivos de memória fora de ordem. Vasculhei por um tempo e percebi ser impossível classificar aqueles arquivos em cronologia, de modo a responder à pergunta do entrevistador sobre a minha primeira memória.
Para me sentir melhor, concluí ser impossível que aqueles convidados estrelados estejam realmente relatando suas primeiríssimas memórias. Tem gente ali que afirma ter uma memória de quando tinha 2 anos de idade. Dois anos. Dois. Ah, não meu querido. Os detalhes da roupinha do seu irmãozinho recém chegado da maternidade não foram percebidos, analisados e armazenados por você aos dois anos de idade para que aos 50, você os compartilhasse num programinha de TV. Não.
Para me sentir melhor ainda, fui pesquisar mais a fundo a questão. De acordo com um pessoal respeitável das ciências lá da Inglaterra, o que as pessoas acreditam ser memórias de antes dos três anos de idade são na verdade fragmentos de experiências. Somados à fotografias e histórias ouvidas durante a vida, estes fragmentos dão origem ao que chamam de memórias ficcionais precoces. Atenção para o precoces. Atenção para o ficcionais.
Me senti mais em paz com o fato de ter uma miscelânea de recordações da infância nos meus arquivos cerebrais e não ser capaz de datá-las. Foi um ótimo exercício no final. Acessei memórias agradáveis de quando era inocente e não sabia de nada. Algumas certamente extrairiam um “aaawwnnnn” da platéia, como a lembrança que eu tenho de ver minha avó pintando as longas unhas de vermelho na área externa da casa enquanto eu, ainda com as pernas cheias de dobrinhas, brincava com bonequinhos de madeira.
Viu? “Aaawwnnnn”. Se esta é uma primeira ou uma décima memória eu não sei. Se é um fragmento ou uma memória ficcional precoce, eu também não sei. O que importa é que está lá, nesse meu HD, entre outras tantas memórias do que foi ser quem sou.
Qual é a sua primeira memória?
