ROSQUINHA

Estaciono o carro em frente a um Dunkin’ Donuts, lá dentro, todas as mesas da loja estavam vazias com exceção de uma que estava repleta de velhinhos de cabelos branquinhos, o que é muito comum aqui na Flórida. O Sunshine State norte-americano está cheio de idosos que depois de aposentados vêm curtir a vida no calor. Às vezes eles se juntam e andam em bando por aí, é tão engraçado! Uma turma sempre animada parecendo um punhado de cotonetes!

O propósito da minha visita àquele centro comercial era ir à farmácia. Mas o apelo do familiar letreiro rosa-choque do Dunkin’ Donuts me fez querer comer uma rosquinha com sabor de infância.

Fui à farmácia e voltei ao Dunkin.
 Os velhinhos estavam lá, animados conversando na mesma, do jeitinho que estavam dez minutos antes quando estacionei.
 Entrei na loja, a porta fez aquele som de sininho para alertar os funcionários que um cliente entrou. Funciona. Todos olham, incluindo os não clientes.
 Peço uma rosquinha gordurenta e aguardo toda a transação quando ouço:

Hey, Miss?
 Ignoro. Não pode ser comigo. Não tem a menor possibilidade de eu conhecer alguém na vizinhança.

Miss?

Insiste a vozinha rouca, concluo que é um dos velhinhos e então decido olhar, sorridente claro, é um velhinho de cabelinho branquinho!

– Você é a Jenny?

– Como senhor?

– Você não é a Jenny? Jenny AlgumacoisaqueeunãoentendiOnson?

– Não senhor, não sou!

Olho para a moça do caixa já fazendo uma pressão pela minha rosquinha com recheio e cobertura e nada dela.

– Tem certeza? Você é igual a Jenny, faz tempo que não a vejo, mas você é muito parecida com ela!

– Eu tenho certeza Senhor!

– De onde você é?

– Por quê? A Jenny é de onde?

– A Jenny é daqui mas ela mora agora em Boston! Você não mora em Boston não é?

– Não senhor, eu não moro em Boston.

– E você não é daqui não é?

– Não senhor! Eu sou do Brasil!

– Brasiiiiiiiiil? Ooooooh! Brasiiiiil! — “pronto” pensei, agora ele infarta.

Beauuuutiful country! Lovely people! Love Brasil! (Lindo país! Pessoas amáveis! Amo o Brasil!)

– Que bom! O senhor conhece o Brasil?

– Só dos livros e do cinema, mas tive uma namorada do Brasil quando estava no “Army”! — momento orgulho do vovô, até a mão no peito ele pôs — Ela era inacreditável!

– Poxa, mas que interessante!

– Belos tempos aqueles, ela veio de férias, foi embora e nunca mais voltou. Foram dois meses maravilhosos! — falava olhando para o nada, provavelmente revisitando a memória.

– Como ela se chamava?

– Não me lembro! Mas me lembro que era linda!

– Aaaaaah — rio — já é suficiente, né?

– Sua rosquinha Darling! — estica o braço com o pacotinho na mão a moça do Dunkin, interrompendo o momento.

Volto-me para o senhorzinho após apanhar minha encomenda calórica, ele estica a mão para um cumprimento cordial, eu retribuo.

– Prazer em conhecê-la senhorita!

– Prazer foi meu!

Trocamos sorrisos sinceros, posso ver a nostalgia em seus olhos cansados.
 Saio rindo sozinha imaginando aquele velho homem enquanto jovem, vestido de uniforme do exército americano assistindo a um filme no cinema de poltronas vermelhas com sua namorada brasileira sem nome. Minha mente vai longe enquanto caminho, acabo derrubando a sacola com a rosquinha no chão.

Abaixo para pegá-la e quando levanto estou em frente a um dos inúmeros escritórios de recrutamento que o exército mantém pelas cidades aqui nos Estados Unidos. Fico perplexa com a coincidência olhando para o lugar através do vidro. Um homem que está sentado lá dentro me encara, claro, uma doida parada na frente da porta…

Me recupero e saio andando rapidamente, que medo daquele homem olhando pra mim, vai que a história se repete? Vai que ele é o velhinho amanhã? Quê? Eu hein? Depois de tudo ele nem vai lembrar o meu nome! Deixa eu sair correndo daqui!


Originally published at cronicascotidianas.wordpress.com on February 12, 2016.