A vida é mais bonita por trás de lentes

Quem via os cabelos grisalhos de Ísis emaranhados em sua habitual poltrona de leitura, costumava lê-la como a frágil senhora de sessenta anos recém separada, cujo marido com síndrome de grandeza havia a pouco trocado-a por sua secretária-de-vinte-e-nove-anos.

Quem cometia esse erro conhecia apenas a camada externa da mulher que detém uma alma tão grande que foge às linhas dessa prosa.

Não cabe aqui descrever em minúcias quem é essa mulher que flagrei capturando o mar. O que importa é que Ísis sempre teve um espírito livre que sofreu inúmeras investidas de ser moldado em anáguas, espartilhos, e, por fim, em um casamento arranjado na década de 60.

Sua separação, ao contrário do que pensam, foi a dose de coragem de gosto doce que ela tanto precisava. Virando de uma só vez, vendeu sua aliança, e a viu se derreter e fundir nas mãos de um ourives que lhe deu uma câmera fotográfica em troca. Depois, pedindo mais uma dose ao garçom, se aventurou por entre países, como cidadã do mundo que sempre almejou ser.

Foi parar no Rio de Janeiro e acompanhou de perto suas sinuosas paisagens, as feições descontraídas de pessoas que aplaudem o pôr do sol, as contradições sociais sob o asfalto quente, e tantas e tantas histórias de pessoas que eram tão parecidas com ela e ao mesmo tempo tão diferentes.

Por trás de suas lentes, Ísis finalmente enxergou um mundo que ela nunca pensou que seria capaz de ver, mesmo com auxílio de seus óculos e de seus livros.

Um mundo que, mesmo em P&B e com 1.200 pixels, é revelado com muito mais nitidez.