Na imensidão de um segundo a mais

Eu tinha seis anos e nenhuma dimensão temporal. Como boa criança da década de 90, gostava de brincar entre os prédios brancos da Asa Sul, catando pedrinhas multiformes e multicores que eu via pela frente. Minha irmã mais velha, com o ar desafiador de quem sempre entendeu mais da vida, veio em minha direção e disse:

“Você não tem a menor ideia de que cinco minutos a mais não fará diferença alguma, não é mesmo?”

De fato eu não sabia. Eu tinha seis anos e nenhuma dimensão temporal. Mas eu não queria ir embora, queria continuar catando minhas pedrinhas e colher amoras no pé antes de ter que subir para o apartamento e levar bronca por ter saído sem avisar.

“Quando você quiser pedir para ficar mais um pouco, tem que pedir mais.. Assim: ‘eu quero ficar mais 15 minutos, eu posso?’. Entendeu?”, continuou.

Quase 15 anos depois, refletindo sobre essa cena que pula sob minhas retinas de forma quase paupável, e já tendo conhecido bem essa tal dimensão temporal em todas suas vertentes — virtudes, efeitos e consequências — torno a refletir sobre a duração dos instantes que se proclamam segundos, minutos e horas.

Como são relativos! Como fingem ser precisos.

Olho para o relógio e juro que ele parou. Sendo digital, não tenho a prova física de que ele funciona — os ponteiros que giram e giram e giram. Torno a espreitá-lo cinco minutos depois, e para minha surpresa ele se moveu em apenas um. Mas como, oras, por quê tanta demora? Eu preciso sair de casa, mas ainda é cedo.

Cedo, cedo, cedo… O tempo não passa.

Mas a vida, fugaz do jeito que ela é, evapora feito água num dia quente com duração infinita. Enquanto nós, formiguinhas, giramos hora mais rápido hora mais devagar, em marcha, para lugar nenhum.