Noite de traição

In bed — Toulouse-Lautrec, 1892

Me desvincilhando de seu abraço apertado, me movo devagar e silenciosamente para fora de sua cama, evitando que seus olhos sonâmbulos notem minha fuga precipitada.

Espreito o relógio na mesinha ao lado e, para minha infelicidade, percebo que ele ainda funciona, mesmo com toda a guerra da noite passada, e continua a exibir sua superioridade sob todos nós.

Procuro meu sutiã preto entre os destroços de um travesseiro de pena no chão e por descuido piso na garrafa quebrada de sua cerveja preferida — “encorpada e amarga, como nós.”

Nude Standing before a Mirror — Toulouse Lautrec, 1897

Vejo um filete de sangue escorrer feito óleo sagrado derramado pelo padre na cabeça dos fiéis, enquanto estes clamam pela remissão de seus pecados. Mas o que escorre de mim e mancha seu tapete marrom não é nuance de arrependimento, mas símbolo de dever cumprido, puro e rouge.

Woman Putting on Her Stocking — Toulouse-Lautrec

Enquanto me visto, penso em todo o caminho de destruição que trilhei até finalmente chegar aqui, nesta cena, neste quarto: o gran finale.

Porque sou humana e fraca, cometo o erro de pensar sobre o depois.

Você vai notar o meu cheiro em seu travesseiro? Vai lembrar de mim com carinho, relembrar meus sons, meus movimentos, minhas mãos pelo teu corpo macio?

Ou já estará vedado para quaisquer sensações que possa experimentar nesse mundo, e apenas continuará tentando cumprir seu papel com maestria dentro deste teatro burlesco?

Respiro fundo e retomo a razão: não importava antes, não importa agora.

A questão, mon amour, é que quando abdicamos de todas nossas perspectivas e aceitamos o convite do caos para passar a noite, o que se espera é que no dia seguinte possamos sair sem deixar um bilhete. Por isso, roubo o meu espólio e saio de sua casa com a mesma fugacidade com que entrei no dia anterior, sem me preocupar em acender uma vela, ciente de que você fará isso ao acordar.

At Montrouge (Rosa la Rouge) — Toulouse-Lautrec