O amor é cego

Eu soube que tinha alguma coisa errada quando a porta não abriu. Inseri a chave, girei e deu um tique estranho. Se a porta poderia estar com defeito? Sim, poderia. Mas eu sabia que não estava. Na verdade, tudo começou ainda antes, quando eu subia a rampa da minha casa e vi que o portão branco, que botamos em Julho para impedir que os cachorros fossem para a varanda — eles atacam minha rinite — , estava aberto. Não estava escancarado, estava encostado, mas não na posição que eu deixei quando sai pela manhã para fazer compras. Tinha um palmo a mais. Foi ai que eu soube. Ou, na verdade, um pouco antes, antes de inserir a chave, antes de subir a rampa. Foi ao perceber que a caixinha do correio não tinha mais o envelope esparso se projetando para fora.

Os cachorros poderiam ter pego. Assim como eu poderia ter me esquecido de fechar o portão.

Mas não, rapaz, como eu disse, eu sabia. Meu raciocínio lógico e pragmático, herança do meu velho que serviu na primeira guerra mundial, não costumam falhar nessas horas.

Como eu dizia, para a porta não ter aberto com a chave havia de ter já uma outra chave lá, trancando a porta por dentro. Eu e meu marido, o Lúcio, não trancamos a porta quando estamos em casa.. O que significa que alguém entrou na casa, pegou a correspondência, encostou o portão e está agora lá dentro, de portas trancadas, em pleno horário de almoço. Ora, quem poderia ser? O Lúcio não é. O coitadinho acorda todo dia às 8h e só volta às 22h, trabalha em vários lugares — até hoje não sei exatamente onde nem em qual serviço. Ele é muito dedicado, sabe? Quer ter o próprio dinheiro, veja só. Vive me enchendo de presente, sei disso por quê olho a fatura do cartão dele e sempre tem joias e roupas caras no extrato.

Onde elas estão? Ah, eu imagino que ele vá me dar tudo junto, daqui há 1 mês, no meu aniversário. Ele sabe que eu gosto de receber tudo junto. Sei disso por quê sorrateiramente vi que ele reservou um quarto em uma pousada cinco estrelas para nós em Porto de Galinhas — por mais que ele saiba que o ar salinizado da praia não faz bem à minha pele e que eu prefira as montanhas.

Ah, o Lucinho… Sabe, muita gente foi contra nosso casamento. Vê se pode, um bando de invejosos!, nossa história é muito bonita. Nos conhecemos em um cruzeiro pelas Ilhas Malvinas. Ele trabalhava como barman, o corpo sarado, com a barriga tanquinho digna dos deuses, e a gravata de borboleta no pescoço. Uma tentação.

Maria Pavão, minha amiga, teria dado o bote nele se o avistasse primeiro. Aquela velhaca usurpadora querendo roubar meu homem. Eu fui logo marcando o território. Convidei ele para uns drinks e.. Bem.. Já sabe onde paramos. Ou melhor, não paramos..

Nos casamos quatro semanas depois. Estamos juntos há 3 meses, vivendo um verdadeiro conto de fadas.

Sim, sim, desculpe por fugir do assunto. Como eu dizia, não, não é o Lucinho que está em casa. Alguém invadiu minha casa, rapaz. Por isso que eu estou ligando. Preciso que enviem uma viatura para Avenida Delfim Moreira, nº 8, Leblon. Para ontem, viu? Começaram uns barulhos estranhos.. Parece que tem alguém gemendo. Venham logo, sim? Quero que tire logo esse pivetinho da minha casa antes que o Lucinho chegue. Vou fazer uma surpresinha para ele hoje… Ah, meu Lucinho…

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