Sobre “crushes” e amor às ideias
@alextr4mp tem um crush em @mar1analissano.
Ele entra no Twitter todos os dias, e já a adicionou em sua lista prioritária para receber todas suas notificações. Ele tenta se achar em cada tweet de 140 caracteres que ela posta entre uma garfada de comida e outra, no ônibus a caminho da faculdade, sentada e entediada em frente a TV. Ele acha que entende de semiótica e consegue ler nas entrelinhas que ela está afim dele também.
Mesmo que ela não o conheça. Mesmo que ela nem o siga de volta (apesar de sua presença onisciente ao favoritar todas suas postagens.)
Mas Alex não é o único. Diversos outros @’s tem crushes, seja em amigos da escola, em pessoas de outras cidades, em famosos. Quem nunca teve um crush não está vivendo intensamente a experiência da Internet.
Crush é aquela pessoa por quem você tem uma quedinha virtual que geralmente se estende para o além-tela, aquela que você stalkea e idealiza como ela deve ser, mediante suas postagens em sites como Twitter, Facebook, Tumblr.

E é o deve aqui que será analisado.
Quem nós somos online não é necessariamente quem nós somos offline. Não somos, inclusive, os mesmos em todas as redes sociais. Cada rede social pressupõem uma determinada forma de agir, com novas linguagens, novas interações e conteúdos postados. Podemos adquirir perfis completamente distintos quando estamos no Twitter e no Facebook, por exemplo.
Mas o sujeito que tem um crush não sabe ou não se importa com isso. Ele se apaixona por ideias que ele cria ou por ideias que o seu crush aparenta ser. David Hume diz que as ideias estão sempre ligadas às impressões. Para ele, existem as “impressões de reflexão” que, com a atuação da imaginação e memória, podem gerar ideias que não necessariamente encontram referencias no mundo.
Pegando sua filosofia e a levando para o contexto cibernético, podemos, então, tomar o caso de Alex como exemplo e enxergá-lo como de fato ele é: um amante de uma ideia.
E é ai que mora o perigo. Essas ideias entranharam em sua mente e ficaram lá alojadas, mesmo após Mariana provar que não é aquela pessoa que fora idealizada anteriormente por ele. Insiste, insiste, tenta moldá-la a uma forma que não lhe cabe e, adivinhem, se frusta por não conseguir.
Mas não chora, Alex. Se você for capaz de dissociar a ideia que faz de Mariana e enxergá-la como de fato ela é; se for capaz de tomar coragem e pedir para sair com ela; se for capaz de ainda se manter apaixonado quando a @mar1analissano se tornar a Mariana, vocês podem ficar juntos!
Bem.. Talvez.
“A maioria das pessoas é melhor no abstrato” Anônimo