Somos todos: observadores

Me acompanhem na seguinte cena: Central do Brasil, 18 horas de uma Sexta-feira. Pessoas andando no mesmo compasso, se cruzando, se entrelaçando e dando nó. Perto da roleta de entrada uma mulher e um homem, com roupas casuais e feições rígidas, dão voltas em torno de seus próprios eixos. Eles estão em busca da efêmera atenção de olhares curiosos que os encontram. Os dois carregam cartazes feitos com cartolina encardida e letras simples.

Mentalizaram? Ok. Agora dirijam a atenção para o outro lado da Central, aquele que tem um portão de saída para a rua da rodoviária. Há uma senhora aflita ali no meio daquele amontoado de pessoas do lado esquerdo. Estão vendo? Observem seus passos pesados, contrastando com a leveza de seu corpo franzino. Com a mente imersa em pensamentos, ela não repara que segue para o lado errado.

Pediu uma resposta para Deus e só consegue pensar em qual momento ela virá. Se virá.

Mas agora vejam lá.

Tendo acabado de sair do trem e agora cruzando a roleta, um jovem alto de cabelos compridos repara no casal que segura placas e resolve parar por uns instantes para observar melhor (quer uma desculpa para furar um compromisso delicado que terá que enfrentar dali a pouco). Dois passos em frente e esbarra na senhora pensativa, que murmura um pedido de desculpas. Ela finalmente percebeu que seguiu pelo caminho errado e ensaiava se virar para ir embora quando enxergou o casal e imediatamente parou.

Essa é a parte boa.

Seu semblante muda, recebendo cores de animação e alívio. Sem pensar duas vezes tira o seu nokia — presente de um afável neto — e pede ajuda do jovem, que agora dedica seu tempo a olhá-la, para pôr na câmera. Mirando como uma arma para o texto do cartaz do casal a velhinha dá seu clique.

Essa não é tão boa.

A narradora dessa história se ausentou antes que o jovem estudante de filosofia pudesse explicar para a senhora sorridente que na placa estava escrito #je suis, e não jesus.

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