julha
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Apr 24 · 7 min read

um dia, eu quero contar a história do meu pai.

digo, a minha história.

desde que ele morreu, eu tive essa tendência de esconder as coisas, de alguma forma.
eu até me via como uma pessoa aberta, mas acho que eu tava errada.
eu nunca me dispus de fato a contar essas histórias, era sempre um “se perguntarem, eu respondo”.

mas cada vez mais eu percebo que isso não é suficiente.

tanta gente tem histórias parecidas com a minha, mas se alguém não for o primeiro a dizer “meu pai morreu”, ou “meu irmão foi embora”, ou até “minha avó morreu antes de eu nascer”, essas histórias nunca vão ser contadas.

a verdade é que a maioria das pessoas que eu conheço sempre conta das suas dores depois de alguém dar o primeiro passo. e eu adoraria ser esse alguém.

uma pessoa que se coloca na frente de todo mundo e diz “esse é o maior trauma da minha vida inteira, e eu vou contar pra quem quiser ouvir”.

acho lindo como algumas pessoas conseguem se expôr dessa forma.

e demorei pra entender que isso não é fácil! não é simplesmente dizer “meu pai morreu”. é compartilhar essa dor, pra que outras pessoas entendam, e compartilhem sua próprias dores. é perceber que esses traumas não trazem nada de bom; a não ser que você faça deles algo construtivo. algo que cure outras pessoas, como eu quero que me cure.

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a primeira vez que chorei pela morte do meu pai foi quando uma amiga me mandou um texto sobre justamente esse assunto. sobre como é perder um pai durante a infância.

aquilo me deixou em um estado de transe, tantas coisas passavam pela minha cabeça enquanto eu lia aquelas palavras, e cada uma delas era uma porrada diferente.

eu vi alguém com uma história parecida com a minha.

uma menina que perdeu o pai aos 5 ou 6 anos, se não me falha a memória.

ela falava sobre como aquilo afetou a vida dela em todos os aspectos possíveis e imagináveis, e eu, no auge dos meus 15 anos, me identificava com quase tudo o que eu lia, e percebia que ainda ia me afetar ao longo de toda a minha vida.

foi um sentimento tão… agridoce. acho que é essa a melhor palavra que eu posso usar. foi a primeira vez que eu chorei por causa do meu pai. mas, ao mesmo tempo eu fiquei tão feliz por ver que mais alguém tinha passado por isso. eu nunca estive sozinha, nem nunca vou estar. mas, pra encontrar pessoas que estejam junto comigo, eu preciso dizer o que me aconteceu.

a dor da perda de um pai ou mãe nessa idade é terrível. é algo que te separa de todas as pessoas que você conhece. quase ninguém que eu conheço teve a mesma experiência que eu. no máximo, foi um pai que sumiu, e que talvez pague a pensão até hoje. o que é uma dor parecida, claro, mas ter alguém que você ama inteiramente, que te ama da mesma forma, e ver essa pessoa desaparecer em um estalo de dedos, é uma coisa incompreensível pra maioria das pessoas. e foi incompreensível pra mim.

me lembro ainda de olhar pela janela e pensar “quando será que o papai vai voltar?” pra, logo depois, lembrar que ele não ia voltar.

me lembro de ir pra casa de amigas, e ver os pais delas conversando, juntos, se abraçando, trocando sorrisos, e eu pensava “eu nunca mais vou ver meus pais se abraçando”. era uma dor tão profunda, mas tão distante de tudo que eu já tinha visto.

e eu, com 10 anos de idade, não tinha lugar pra depositar essa dor que crescia e se enraizava dentro de mim.

só fui perceber o quanto isso tinha me afetado anos depois.

aos 16 anos, falei pra minha mãe que queria voltar pra psicóloga. a minha primeira consulta foi um baque. ela me perguntava sobre o meu pai, sobre a morte dele, e eu percebi que não sabia de nada. nem como ele tinha morrido de fato.

então, na segunda consulta, eu fui com a minha mãe. ela passou a sessão inteira chorando, e eu passei metade da sessão escondendo o choro (sem sucesso, mas eu, teimosíssima, dizia entre soluços que não estava chorando). lá eu percebi que o buraco era muito, mas muito mais embaixo.

minha mãe não só tinha essa tristeza profunda como a minha, mas ela tinha raiva.

“não foi isso que a gente combinou”, ela repetia, com uma caixa desnecessariamente grande de lencinhos de papel no colo. naquele momento, eu comecei a entender a minha mãe um pouco mais.

ela dependia do meu pai, e ele dependia dela. eles fizeram planos, eles tiveram duas filhas, eles construíram uma casa! e no meio disso tudo, ele desapareceu.

a gente vive com isso tudo até hoje. diariamente.

até tatuei memórias do meu pai nos meus braços, em parte porque eu sei que ele tá sempre comigo. vivo ou não, ele sempre esteve comigo.

meu pai foi uma das pessoas que mais me amou até hoje, tenho certeza absoluta. sempre fui apaixonada por ele, e ele por mim. eu poderia ficar horas contando histórias sobre as coisas que ele fez só porque “eu queria” alguma coisa. ele me mimava de formas que eu nem imaginava que eram possíveis.

eu me sentia uma princesa todos os dias.

uma vez, a gente viajou pra bahia com a família. vieram uns repórteres na nossa casa, pra fazer uma dessas matérias que ninguém assiste, sobre como era a cidade, o que a gente estava achando da viagem, essas coisas.

e entrevistaram a minha prima, comigo do lado. eu fiquei morrendo de inveja, e falei que queria ser entrevistada também.

meu pai, completamente doido, me colocou no banquinho de trás da bicicleta e foi pedalando atrás da van pra eles me entrevistarem. mas no meio do caminho eu desisti da ideia e falei pra gente voltar, porque achei trabalho demais e eu tava com fome.

meu pai era um personagem.

na minha cabeça de criança, se ele quisesse, ele vivia até os 150 anos.

mas nem tudo que acontecia na minha cabeça de criança virava realidade, por mais que meu pai tentasse sempre materializar os meus sonhos.

por anos, minha vida foi um “se meu pai tivesse aqui…”

eu imaginava como a minha vida teria sido diferente, que escolhas eu faria, e que escolhas ele faria pra gente. não sei nem onde a gente estaria morando agora.

quando eu passei pra letras, só pude pensar no meu pai.

ele lia como ninguém, era redator, escrevia coisas lindas. infelizmente, nunca tive muito acesso aos escritos dele, mas tudo que eu já li me encanta.

tudo isso me inspira pra ser um pouquinho mais como ele. manter um pedaço dele comigo, seja por meio de tatuagens, livros, ou fotos nossas.

tem um quadro dele no meu quarto. meu pai, além de escritor, jornalista, redator, e melhor-pai-do-mundo, ainda pintava! e pintava bem, viu?

vou te falar, se tem uma coisa que eu sempre amei fazer, é me gabar do meu pai.

hoje não posso fazer isso sem as pessoas ficarem com aquela cara de “que legal, mas meus pêsames”, e a conversa do nada fica triste.

não é isso que eu quero! quando eu falo do meu pai, falo de alguém forte, sorridente, criativo, uma pessoa que sabia conversar com qualquer um e que tinha a risada mais bonita que eu já ouvi na vida.

quando eu falo do meu pai, não quero ver olhinhos tristes, não quero ouvir “que pena que ele não tá aqui”, quero ouvir “ainda bem que ele esteve aqui”!

apesar da felicidade, meu pai passou anos lidando com uma depressão fortíssima. ele foi até pra uma clínica, passou meses lá, indo e voltando, tomando vários remédios. foi uma fase complicada.

uma das coisas que puxei dele, além da beleza inigualável e a criatividade que vira-e-mexe não me deixa dormir, foi essa tal dessa depressão.

estranho pensar essas coisas, mas desde que eu descobri que ele teve depressão (naquela segunda sessão da psicóloga), me sinto mais próxima dele.

tem partes dele em mim, boas e ruins, e cada dia encontro mais pecinhas do meu quebra-cabeça. fácil saber que ele é meu pai, porque eu sou parecidíssima com ele (que é igual ao meu irmão, que é igual a mim, tudo se encaixa), mas saber que eu amo escrever que nem ele, ou que amo tirar fotos porque ele fotografava, e me emprestava a câmerazinha dele pra ficar brincando (resultando em dezenas de álbuns de fotos chamados “JULIA EXPERIMENTA”, “JULIA FOTÓGRAFA”, “SOFIA BANHO POR JULIA”, ou qualquer coisa parecida).

descobrir que eu tenho depressão (em parte) porque puxei dele, por mais estranho que pareça, me dá esse mesmo sentimento. ele me influencia desde antes de eu nascer, e mesmo que ele tenha me dado, junto com o amor à escrita e fotografia, uma doença, eu ainda olho pra essa herança com bons olhos. porque tudo isso é dele, e é manifestação dele por meio de mim. olha que coisa doida.

é uma experiência tão única, conhecer o meu pai depois de ele morrer.

conhecer ele por meio de fotos, histórias, pedacinhos de conversas que ele já teve, frases e palavras como “escangalhou”, ou “só se for agora, samba de primeira”. algumas expressões eu nunca entendi, mas só por terem saído da boca dele, me fazem sorrir.

e cada um desses pedacinhos-de-pai que me construíram, me deixam orgulhosa de ter tido alguém tão incrível na minha vida, mesmo que por pouco tempo.

em homenagem a tudo que ele fez por mim, tudo que eu quero nessa vida é levar um pouquinho do meu pai pra todos os lugares que eu for.

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    julha

    20, rj | um poço de pontas soltas

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