Bati na sua porta

Desculpa.

Desculpa o inconveniente. Eu não queria incomodar. Eu sei que não sou bem-vinda e que minhas aparições são carregadas de escuridão e pensamentos negativos. Sabe o que acontece? Eu me sinto tão só aqui. É tão solitário, é tão frio, tão escuro. Eu só queria alguém sabe? Ninguém nunca vem me visitar, ninguém fica feliz com minha chegada. Minha presença assusta as pessoas. Muita gente não me entende também. Apesar de eu estar rodeada de gente, boa parte do tempo nunca pareço ser uma boa companhia para ninguém. Nunca consigo agradar. Eu não queria ser essa nuvem negra que por onde passa deixa uma marca. Uma mancha, um rastro de desamparo, de desespero. Por onde passo as pessoas olham com desdém. Olham com julgamento e com incompreensão.

Então eu tento. Eu tento muito achar pessoas como você, que possam entender, que possam me ajudar e me fazer companhia. Que possam me dar a mão e andar ao meu lado. Mas quando faço isso eu me abalo. Pois vejo sua tristeza. Vejo quanto minha presença te prejudica. Quanto te faz mal. Eu percebi que tenho esse efeito nas pessoas. Uma luz se apaga, eu sinto a energia sendo levada embora, sendo sugada.

Queria pedir desculpas pelas vezes que bati na sua porta e você estava ocupado vendo seu filme favorito, ou das vezes que te liguei de madrugada te acordando no meio da noite fazendo você perder seu sono. Onde você se remoeu em pensamentos dolorosos até o amanhecer. Desculpa pelas vezes que precisei de você em casa sem motivo aparente fazendo você perder o dia, ou pelas minhas oscilações de humor. Desculpa pelas vezes que te fiz chorar e que fiz você repensar sobre toda sua vida e existência. Por favor, saiba que eu não faço por mal. Não é pessoal. Eu não queria atrapalhar, eu não queria fazer mal.

Me ajuda? O que eu posso fazer para não ser demonizada? Julgada? Estereotipada? Eu não aguento mais. Eu só queria fazer bem pra alguém. Nunca fiz alguém sorrir. Minha partida é sempre celebrada. Os cochichos são sempre sobre mim. As fofocas, os mal olhados, os problemas.

Não aguento mais.

Então desculpa que eu bati na sua porta, entrei e fiquei no seu pé, na sua cabeça. Que eu invadi sua privacidade e seus pensamentos. Que tomei conta da sua rotina e te desgastei. Desculpa que te pus pra baixo e fiz você se afastar dos seus prazeres e lazeres. Desculpa ser esse peso na sua vida, esse fardo. É só que eu preciso de alguém, de uma companhia. Alguém que olhe pra mim, alguém que cuide, que abrace, que me sinta.

Você vai se livrar de mim.

Eu ainda vou sair da sua vida, e quando sair, eu prometo pra você que vou fechar a porta atrás de mim.

Da sua velha amiga,
D.