De boas

Quando eu tinha 14 anos escrevi em um diário que com 16 eu queria ter o cabelo lisinho, um 10 em ciências, um namorado e nenhum hímen. Perdi minha virgindade com 20 anos, sem namorado, com meus cabelos cacheados e sem ciências na minha vida (eu estava estudando jornalismo na faculdade). Não. Não me tornei religiosa entre os 14 anos e os 20. Não escolhi esperar. Esperei mesmo porque a vida quis. E não, não me arrependo de nada e muito menos tenho alguma amargura da adolescência sem sexo.

Sabe aquela situação chata quando você está beijando alguém, e o clima está esquentando, as mãos se perdendo dentro das roupas e você para o rapaz porque sabe o que vai vir depois e acha que está cedo demais? Afinal, vocês se conhecem pouco, e ele pode estar se aproveitando de você. Sua mãe te ensinou que a virgindade é algo que se preserva e só se dá pra alguém muito especial. O sensato era esperar ele te provar amor eterno e aí então, você transaria com ele. Então, nunca passei por essa situação.

Além de discordar com todos os conceitos tradicionais acima, meu ensino médio foi cheio de rapazes idiotas (como todo ensino médio), e eu nunca fui muito paciente. Eles passaram minha vida escolar implicando com meu cabelo e, quando finalmente desistiram, lá no pré-vestibular, passaram a implicar com meu posicionamento político (colégio tradicional, aluna de esquerda, sabe como é). Então assim, paquerinha de colégio, tive um ou outro, mas ficar de casalzinho, só na faculdade.

Ele era formado, mais velho, desempregado e incrivelmente charmoso. Já nos conhecíamos de vista desde o meu primeiro período, mas ele namorava e eu tinha zero esperanças. Era platônico mesmo. Um ano depois nos encontramos em uma festa estranha com gente esquisita e ficamos. Depois disso começamos a sair direto. PRONTO. É AGORA. Eu jurava que iriamos transar. Até porque né, saiamos quase 3 vezes por semana, e pra casa dele ver Netflix. E ele era bem mais velho. E sexy. Bem sexy (na época eu achava). Mas aí aconteceu… me apaixonei. E ficou tudo mais difícil porque eu sou medrosa, e achava que ele ia partir meu coração e levar minha dignidade (realmente aconteceu, e nem precisamos transar pra isso).

Meses depois, eu conheci outro formado, mais velho, desempregado e igualmente charmoso. Era o melhor amigo do primeiro. ENFIM. Assunto pra outro texto. O fato é que, por esse eu não me apaixonei. E foi com esse que eu transei pela primeira vez. Estávamos saindo há uns 2,3 meses e ele era muito atencioso comigo. Foi na casa dele. Era minha segunda vez lá (na primeira eu estava menstruada). Assistimos Manhattan do Woddy Allen bebendo vinho, comendo queijo, aquela coisa pretenciosa pseudo cult de jovens que forçam pra parecerem adultos, sabe?

Quando o Woody se despediu da novinha lá dele e o filme acabou, Mogli foi o próximo filme escolhido. SIM, a animação da Disney. Assim, nada contra, mas eu estava doida pra dar pro desgraçado e ele escolhe um filme que marcou minha infância? Assistimos esse todo também, e depois ele colocou um stand up do Fabio Porchat. STAND-UP-COMEDY-FABIO-PORCHAT. Não teve outra, parti pra cima dele porque sério, me recusava a assistir aquilo.

“Tá doendo?”

“Pra caralho”

“Quer que eu pare?”

“Não”

A eu de 14 anos nunca imaginaria uma cena tão simples quanto essa, mas foi assim que aconteceu minha primeira vez. Ele terminou comigo na semana seguinte e sinceramente, o sexo doeu mais que o termino. No início até fiquei magoada sabe, pensando que ele não merecia ter sido meu primeiro, mas ai eu lembrei que o maldito passou a noite lavando o lençol sujo de sangue que minha virgindade deixou e fiquei de boas.