Pedi demissão: do meu chefe.

Eu tinha uma vida confortável. Um emprego, realmente, estável. Um salário acima da média dos meus amigos de faculdade, quatro anos de empresa, trabalhava em uma multinacional francesa (o que poderia facilitar minha ida pra França), muitas contas pra pagar, mas escolhi sair.

Pedi demissão. Mas não do meu emprego. Trabalhava com comunicação corporativa e realmente gostava muito do que fazia. Mas o que me deixava tão infeliz ao acordar todos os dias de manhã e pensar que eu teria de ir trabalhar?

Foi uma escolha verdadeiramente difícil. Uma escolha que não se faz todo dia. Não se faz sozinha quando outras pessoas estão envolvidas e serão diretamente afetadas pela sua decisão. Liguei para minha mãe. Ela estava internada, acabara de passar por uma cirurgia. Tadinha. Fiz ela passar por isso em um dos momentos mais difíceis da vida. Mas, ou era isso, ou teria que tirar uma pedra da minha garganta. Aquilo estava me sufocando.

Achei, de verdade, que ela me traria para a realidade. Me faria pensar racionalmente no caso. Mães sempre dizem a coisa certa. Ela me pediria paciência. Diria para terminar mais um dia e, então, ir pra casa descansar e esfriar a cabeça. Mas não.

“Faz o que o seu coração está mandando”.

Essas foram as palavras da minha mãe. Com uma voz fraca de quem ainda não estava 100% recuperada de uma anestesia geral.

Aquilo caiu como uma bomba. Minha mãe tinha acabado de alimentar meu gigante esmeralda. Tomei coragem e me demiti. Me demiti do meu chefe. Aquele que não mostrara, até então, nenhum motivo para eu ficar.

Eu sabia que ele precisava de mim. Ninguém é insubstituível, mas eu sei que precisava.

Tenho 25 anos, trabalho desde os 17 e já tive sete chefes. Já sofri assédio moral, ganhei salários miseráveis, passei por poucas e boas, mas nunca me senti tão pequena perto de alguém como com ele.

Pra mim, esse é o pior tipo de gente que pode existir: aquelas que precisam diminuir os outros para se sentirem maiores (e melhores!).

Cansei de me sentir pequena. De trabalhar sem vontade e sem paixão por aquilo que faço, pelo simples motivo de ter que agradar alguém que o ego ocupa cem piscinas olímpicas e mais alguns campos de futebol. Cansei de alimentar o ego alheio.


Sinto falta dos amigos que fiz, da estrutura bem definida da empresa, da organização francesa, mas nunca daquele ser humano que me roubou sorrisos e alguns bons dias da minha vida.

Agora me sinto livre. Mas, afinal, por que eu tô falando isso?

Porque sei que diariamente milhares de jovens com talento estão desperdiçando suas vidas com chefes que não valem o som do despertador às 5h da manhã. Com empregos que são, de fato, muito bons para suas carreiras, mas péssimos para o coração.

Falo isso para encorajá-los. Encorajá-los a pegar esses 10% de emoção que restam aí dentro e usar numa crise de riso, de fúria, de amor e, principalmente, de coragem… Fazer alguma coisa que só depende de você para mudar aquilo que não está certo na sua vida. Vai doer, mas vai passar. Vai dar um desespero, mas vai passar. Você vai abrir mão de algumas coisas, mas vai passar.

Ao contrário do que dizem, nossa geração tem valores importantíssimos e não somos um aglomerado de gente vendida que prometeu mudar o mundo e, agora, está enchendo a cara de cerveja artesanal enquanto pensa na próxima série original da Netflix. Não.

Temos fases. A vida não é that easy. Certamente você já precisou “se vender” para pagar o aluguel, mas isso não significa que será assim pelos próximos 6 meses.

Eu não podia pedir demissão. Não mesmo. Mas antes um aluguel atrasado do que um reembolso do convênio recusado e um limite estourado na farmácia.

Me livrei de pessoas tóxicas e agora me sinto viva novamente. Consegui um novo emprego, um salário melhor e um ambiente de trabalho realmente agradável. Tudo graças ao momento que eu resolvi seguir o meu coração, reconhecer a profissional que sou e ver que o mundo é grande pra cacete.

Livre-se de pessoas que não te fazem bem. Se for pra mergulhar de cabeça, que seja nas possibilidades que a vida te oferece e não na piscininha do umbigo de ninguém.