Para Tóquio de ônibus

Se eu escrevesse um livro esse seria o título. Além de conter um apelo e despertar curiosidade (como assim, de ônibus?) é exatamente assim que meu primeiro mochilão começou.

Gosto de pensar que tudo o que aconteceu — e acontece, é uma forma de te preparar e fortalecer. Uma forma de te provar mais capaz, te mostrar tua intensidade e te fazer rever teus conceitos de segurança.

Planejamento é uma questão chave para sobreviver, muito já me falaram isso. É claro que é muito mais charmoso o inesperado, viver como se não houvesse amanhã… Mas um pouco de segurança nunca fez mal a ninguém e aquele delicioso clichê “o seguro morreu de velho” faz muito sentido depois de uma certa idade.

E tem dias que o destino pouco se importa com o teu planejamento, com tuas planilhas, com teus sonhos. Ele acorda pensando qual seria a melhor pedra pra colocar no teu caminho e, então, perto do dia do nosso embarque, decidiu colocar um vulcão, no Chile, em erupção. Nos sites de notícias era comum ler que o Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, poderia ser fechado pois o vento estava trazendo as cinzas para cá e a visibilidade baixaria consideravelmente. De-ses-pe-ro. Diante do susto, o que fazer? Afinal, nossa passagem pela Etihad era partindo de Guarulhos (SP), ou seja: se o trecho de Porto Alegre fosse cancelado, perderiamos o vôo para Tóquio. Então partiu rodoviária.

Começando 24 horas antes do esperado, a solução foi ir de ônibus para São Paulo, desembarcar no Terminal Rodoviário Tietê, com mochilão, com câmera, com dólares e com muito nervosismo, embarcar rumo a Guarulhos, lá esperar umas 12 horas até a chamada do nosso vôo e, puxa, cansei. Querem com emoção? Ok, emoção vocês vão ter. Lembro de na época calcular quanto tempo de viagem teriamos até chegar ao nosso Airbnb, em Shibuya, e parei quando somei 66 horas.

Quem já foi pra São Paulo nesse ônibus, que atravessa os estados durante a madrugada, sabe que a viagem é tensa e que é quase improvável que tu vá realmente dormir, ainda mais quando tu carrega as economias dos últimos dois anos na doleira, sob a leggin preta, e é pego de surpresa. Munida com a Piauí do mês, sudoku e um celular antigo com Space Invaders, a noite foi longa. A dor nas costas era uma realidade. Pela primeira vez na vida cogitei dar dinheiro para o hotel caríssimo localizado dentro do Aeroporto de Guarulhos. Não só cogitei como cheguei dizendo “PLEASE TAKE MY MONEY”, tamanha a exaustão. Como foi essa experiência? Cara porém não tenho arrependimentos. A necessidade fez eu dar importância para o banho, para a cama e para cada minuto de sono tirado ali.

E a função toda tava só começando, né…

Muita gente me perguntava como eu iria aguentar as várias horas presa em uma cápsula no céu e garanto que elas só pensavam na minha linda capacidade de ser extremamente hiperativa e cansar rápido das coisas que me entretém. Ledo engano: eu dormi. Muito. Dormi como se não houvesse amanhã. Dormi por horas. Acordava para comer e voltava ao sono dos inocentes. Aliás, a comida servida na classe econômica da Etihad rende um texto quilométrico, era ótima. E como eles ganharam meu coração? Oferecendo pipoca nos poucos momentos da madrugada em que eu acordava para olhar um filme.

O cardápio trazia três opções para cada refeição, se não me engano. Eu sempre tentava sair da zona de conforto e escolher pratos diferentes para experimentar a maior quantidade possível de alimentos exóticos ou não tão comuns na culinária cotidiana brasileira. Lembro que no café da manhã tive meu primeiro contato com a fruta da moda, a pitaya. Linda, rosa por fora, poá preto e branco por dentro, consistência duvidosa, mas isso não vem ao caso. E uma das útimas informações do cardápio era, pra mim, das coisas mais interessantes: todos os alimentos seguem a lei halal*.

Devo ter os cardápios guardados em algum lugar, por que é o que pessoas nostálgicas fazem: colecionam qualquer pedaço de papel que possa causar lágrimas de saudade um dia. E eis que as lágrimas surgem só de lembrar…

*Nota da autora: Ao escrever fiquei na dúvida se minha colocação está certa, por isso o hyperlink para o Wikipédia, mas basicamente o Islã tem algumas leis sobre comportamento e consumo, sugiro a leitura para maior entendimento.
One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.