Banana Podre

Com sua migração forçada ao distante trópico americano, bananas abriram florestas, derrubaram governos, armaram milícias e povoaram a imaginação de novelistas e cineastas de toda uma geração. E tudo começou por causa de um gringo. Esta é a história do início da fruta mais poderosa do mundo — e também do seu iminente fim.

Macondo, o imaginário povoado de Gabriel García Márquez, tem em si as cicatrizes de um continente inteiro. E é a América Latina que inspira Gabo — como é conhecido entre seus conterrâneos colombianos — na criação do que logo se tornaria um dos 100 livros mais lidos na história da literatura, rendendo-lhe um Prêmio Nobel em 1982. Conhecido por seu enredo beirando ao fantástico, uma espécie de realismo mágico, “Cem Anos de Solidão” traz consigo fatos de um passado bastante real na história da América Latina. Longe de serem criações da ficção, as empresas bananeiras norte-americanas chegam à região para tecer um impressionante conto de trapaças, golpes de estado, assassinatos e corrupção.

“Vejam só a confusão em que a gente foi se meter, só porque convidamos um gringo para comer banana”. Sob o comando das palavras de Gabo, o Coronel Aureliano Buendía lamenta as mudanças trazidas à comunidade pela empresa bananeira. “Mudou os padrões da chuva, acelerou o ciclo das colheitas, transferiu o rio do lugar onde sempre esteve”, continua.

Diferente do romance, na versão real da história não houve sequer um convite. Mas houve um gringo. Em 1870, o navegador Lorenzo Dow Baker chegava ao porto de Jersey, nos Estados Unidos, com 160 cachos de banana da Jamaica. Era a primeira vez que os norte-americanos eram introduzidos à fruta — e foi um sucesso. O que era até então uma exótica iguaria do Oriente, povoaria os quatro cantos do mundo até meados do século XX.

Menos de 150 anos se passaram desde a revolucionária chegada das bananas a Jersey. Mas a dependência da raça humana em relação à fruta é de longa data — uma história de mais de 7.000 anos. Tendo sido cultivada pela primeira vez na remota ilha de Papua Nova Guiné, a banana percorreu uma trajetória extensa, passando pela Ásia, Oriente Médio e África, até chegar, via mãos portuguesas, ao Caribe e às Américas, onde recebeu o refinado status de “commodity”, integrando-se de vez ao mercado mundial.

Nada mais seria o mesmo para a banana. O que antes era uma fruta selvagem da região do Sudeste Asiático, hoje é a fruta mais popular do mundo. Entre os mais importantes alimentos cultivados ao redor do globo, a banana perde apenas para três: o trigo, o arroz e o milho. É uma fruta de segurança alimentar, contribuindo para uma elevada porcentagem — quase 90%, em algumas regiões — das calorias consumidas nos países mais pobres do hemisfério sul. Mais de 100 bilhões de bananas são consumidos anualmente no mundo todo, de São Petersburgo a Madrid. De Santiago do Chile ao Taiwan. De São Paulo a Nova York. E ainda assim, tudo que sabemos sobre ela está errado.

Esta fruta sequer é uma fruta. É aquilo que a língua inglesa classifica como “berry”, uma categoria que consegue juntar, num mesmo grupo, o tomate, a uva e o café. Nasce em arbusto, não em árvores. E pode ser até vermelha, quando quer. A internacionalmente famosa banana amarelada de sabor doce é apenas uma entre as mais de 1.000 espécies de bananas existentes na face da terra. Nomeada Cavendish, em homenagem ao inglês Duque William Cavendish, foi a espécie elegida para ser a banana comercial da atualidade. Muito antes do McDonald’s ou do Starbucks pipocarem nas esquinas, a banana já era uma das primeiras fast foods do mundo: barata, replicável e comercializada em escala global. E com a grande vantagem de contar com a quase indiscutível recomendação dos médicos.

Os Estados Unidos são, de longe, o principal importador da fruta, atingindo um marco de 3 bilhões de toneladas de bananas consumidas só em 2016. O preço tem um importante peso nessas estatísticas. Apesar de ser produzida a milhares de quilômetros de distância, a banana ainda é mais barata e mais consumida do que outras frutas produzidas no país, como a laranja e a maçã. No ano passado, 10 bananas compravam, respectivamente, 3 maçãs e 5 laranjas. O motivo? Produzir bananas é muito, muito barato.

Adesivo Azul, Casa Branca

Chiquita Brands International criou o código e deu forma à mega indústria da banana que conhecemos hoje. Fundada em 1863 pelo navegante L. D. Baker — sim, aquele gringo — e o empresário Andrew Preston como a Boston Fruit Company, a multinacional foi a primeira empresa dedicada à produção e comercialização internacional da banana e já passou por nomes diversos, sendo mais conhecida por sua forte atuação nas Américas, entre 1899 e 1970, como a United Fruit Company. Para atender ao recém-forjado gosto dos norte-americanos pela fruta, a empresa recorreu a uma conhecida fórmula do imperialismo moderno: controle político-social, apropriação de recursos estrangeiros e investimento direto.

Nos anos 1860, a Boston Fruit Co. começou a preparar o terreno para a produção em escala da banana. Elegeu como quintal a América Central por sua proximidade geográfica e clima tropical, favorável ao cultivo da planta. Os anos seguintes seriam marcados pela intensa presença e interferência norte-americana no mar do Caribe. Nasciam as famosas “repúblicas bananeiras” da América Central, termo cunhado pelo cronista e pseudônimo O. Henry, em seu não-tão-fictício “The Admiral”. A United Fruit Co., com o apoio de entes governamentais norte-americanas forjava uma poderosa aliança com as elites latino-americanas, garantindo para si o monopólio da produção, importação e distribuição da indústria bananeira, da América do Sul à América do Norte.

Em poucos anos, a United Fruit Co. tornou-se a maior latifundiária da América Central, contando com uma imensa reserva de terras e prerrogativas do Estado. Florestas tropicais iam abaixo e, em seu lugar, novas linhas ferroviárias eram construídas, garantindo o transporte em massa da fruta das plantações aos portos. Navios à vapor subiam o mar do Caribe repletos de bananas, que chegavam aos portos norte-americanos amarelas e perfeitas para o consumo, graças à revolucionária invenção do sistema de refrigeração à bordo.

Estima-se que, entre 1930 e 1990, mais de 25 intervenções militares foram promovidas na América Latina em nome das companhias bananeiras. Em 1929, a United Fruit Co. protagonizou o esquecido “Massacre da Banana”, em Aracataca, no qual 3 mil trabalhadores em greve foram metralhados em plena praça pública, amontoados nos trens cargueiros e lançados ao mar. Expropriada pelo governo revolucionário de Fidel Castro, a empresa teria apoiado o governo norte-americano e exilados cubanos na famosa e fracassada invasão da Baía dos Porcos, de 1961. Dez anos depois, o escândalo de “Bananagate” invadia a mídia, revelando contratos milionários entre a empresa e a ditadura militar de Oswaldo López Arellano, em Honduras. O episódio teria repercussões trágicas, levando à paralisação das ações da United Fruit Co. na Bolsa de Valores de Nova York e, três anos depois, ao suicídio de seu CEO, Eli Black.

Os irmãos Dulles foram, possivelmente, a concretização máxima da estreita relação entre Washington e Chiquita. Nos anos 1950, John Foster Dulles, Secretário do Estado de Eisenhower, já advogou pela United Fruit Co., enquanto seu irmão, Allen Dulles, foi conselheiro da empresa e diretor do CIA sob o mesmo governo. Juntos, orquestraram o golpe de 1945 contra o guatemalteco Jacobo Árbenz, cuja plataforma política socialista propunha a reforma agrária no país.

Ao longo dos anos, Chiquita e suas predecessoras foram acusadas de participar de iniciativas terroristas, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. A multinacional é a primeira entidade privada norte-americana a ser judicialmente condenada pelo financiamento de grupos classificados como terroristas pelos EUA, tendo compactuado com o grupo paramilitar de extrema-direita Autodefesa Unidas de Colômbia (AUC). Na ação, Chiquita foi representada e defendida pelo advogado Eric Holder, futuro Procurador-geral do governo de Barack Obama, e alegou, em sua defesa, extorsão por parte dos grupos terroristas.

Em 2015, a Agência de Segurança Nacional (NSA) tornou públicos os chamados “Chiquita Papers”, uma coleção de mais de 9 mil documentos confidenciais da Chiquita que confirmava as operações da empresa junto ao AUC. Os documentos são provas em um novo processo contra a empresa, agora no Tribunal Penal Internacional (TPI), corte supranacional que julga indivíduos por crimes de natureza grave, como genocídios, crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Entre os condenados pela corte está Thomas Lubanga, ex-líder do movimento Força Patriótica para a Libertação do Congo (FPLC), sentenciado a 14 anos de prisão pelo recrutamento de crianças no conflito armado interno do Congo no início dos anos 2000.


“I’m Chiquita and I’m here to say…”

Já no outro hemisfério, Chiquita lançava mão de uma impressionante campanha publicitária nos Estados Unidos. No início do século XX, a banana ainda era desconhecida pela população norte-americana e sua chegada gerava tabus prejudiciais aos negócios. Longa e falicóide, a banana era uma fruta proibida entre as mulheres (alguns horticultores defendem que era a banana, e não a maçã, a fruta proibida do Jardim de Éden). E sem as mulheres, a fruta jamais chegaria às mesas do café da manhã e às lancheiras das crianças. Era preciso tornar a banana não só moralmente aceitável, como desejável.

A tarefa ficou por conta de Dik Browne, criador da mais famosa tirinha “Hagar, o Horrível”, que, em 1944, deu vida à nova mascote da marca: Señorita Chiquita Banana. Nas telas, Señorita Chiquita ganhava a forma de uma banana antropomorfizada com pernas de mulher e trajes latinos, numa clara alusão à então contemporânea Carmen Miranda. Quarenta anos depois, completou sua transição à forma humana sob o traçado de Oscar Grillo, criador da inconfundível “Pantera Cor-de-Rosa”. O primeiro jingle da marca chama a atenção pela letra. Na doce voz da artista Patti Clayton, Señorita Chiquita cantava sobre coisas que, hoje, é senso comum: como saber se uma banana está pronta para comer? Qual parte da fruta se come? E como se tira a casca?

A canção logo se tornou um dos jingles comerciais de maior sucesso da história, chegando a tocar, em seu período de auge, mais de 370 vezes ao dia em rádios ao redor do país. O amor nacional à banana estava declarado: Señorita Chiquita era oficialmente uma celebridade, fazendo aparições nos mais famosos programas de rádio do país. Os dias de anonimato da banana chegavam ao fim.

1º Comercial da Chiquita Brands

Não tardou pro romance dar seus sinais de loucura: depois do amor à fruta, veio a guerra às cascas. O aumento do consumo da banana chegou a um ponto inimaginável. Cascas de bananas eram lançadas aos montes às ruas de Nova York, dando origem a um dos mais famosos “skits” da comédia. Escorregar sobre uma casca de banana era mais do que uma cena dos filmes do Charles Chaplin ou das histórias em quadrinho — era o cotidiano. Pessoas escorregaram, caíam, se machucavam. Dizem que um homem até morreu. A situação, cômica e trágica, chegou a tal ponto que até a polícia foi envolvida: em 1896, Theodore Roosevelt, então Chefe do Departamento Policial de Nova York (e, 5 anos depois, Presidente dos Estados Unidos), convocou o reforço de uma ordem proibitiva contra o descarte de bananas em calçadas públicas, sob penalidade de multa de US$1 a U$5 ou de 1 a 10 dias de cadeia.

Adeus, Cavendish?

Após mais de 60 anos de império, a Cavendish parece estar com seus dias contados. O Congresso Internacional da Banana de 2016 expôs uma das maiores fragilidades da indústria da banana. Geneticamente desenhada para o lucro e a globalização, a banana Cavendish encontrará sua ruína numa força maior: a seleção natural. Providos de um único e idêntico sistema imunológico, os clones Cavendish poderão ser todos completamente eliminados da face da terra com o advindo da Praga do Panamá TR4 (em termos científicos, Fusarium oxysporum f.sp. cubense), que pouco a pouco, avança da Ásia em direção às Américas.

Mas a praga não é nenhuma novidade. Nos anos 60, o fungo conseguiu destruir a antecessora da Cavendish, uma espécie que supera a nossa atual banana em sabor e qualidade: a banana Gros Michel ou “Big Mike”. A Cavendish sobreviveu à praga e ganhou o holofote. E o mundo se acomodou ao seu gosto inferior. Mas desta vez, ela não está imune.

Com o constante vai-e-vem e zigue-zague de pessoas pelos seis continentes do globo, a Praga do Panamá poderá chegar às plantações latinas e caribenhas a qualquer instante. Ninguém realmente sabe quando. Pode demorar anos. Pode ser amanhã. E não há como deter seu avanço. Mas cientistas e agricultores do mundo inteiro já buscam alternativas. Entre as mais prováveis, encontra-se, também, a mais fatal: sentenciar a Cavendish à morte, isto é, escolher uma nova espécie de banana, imune à doença, para encabeçar o comércio mundial da fruta. Outra possibilidade é a engenharia genética. A tecnologia disponível hoje permitiria a cientistas editarem o código genético da Cavendish através de um inovador sistema denominado CRISPR, de modo a torná-la resistente a determinadas doenças e pragas, como a própria TR4.

Mas o verdadeiro risco da indústria bananeira se encontra em sua essência, seu modus operandis. Não é a primeira vez que o modelo “fast food”, pautado na quantidade e rapidez, em detrimento da qualidade e variedade, expõe suas vulnerabilidades. Cientistas alegam a necessidade de introduzir novas espécies de bananas ao mercado e diversificar a oferta, mas empresários relutam em abrir mão do que hoje totalizam quase 150 anos de produção e comercialização em massa de verdadeiros clones.

Para fazer frente à praga, Chiquita tem optado por outra caminho: o uso de pesticidas e agrotóxicos. Longe de ser uma estratégia viável, a prática é criticada pelos efeitos prejudiciais dos químicos para os trabalhadores e o meio ambiente. Apesar de certificada com o selo de sustentabilidade da ONG Rainforest Alliance, a empresa enfrenta múltiplos processos na justiça norte-americana pela suposta contaminação de áreas residenciais e intoxicação de trabalhadores e crianças em pelo menos 4 países da América Latina: Equador, Guatemala, Nicarágua e Costa Rica.

Campanha “Follow the Frog”, da Rainforest Alliance

Hoje, a influência política e econômica da Chiquita não se compara à de sua predecessora, a United Fruit Co., que, em seu auge, fora descrita pelo jornalista Peter Chapman como uma empresa “maior do que muitas nações”. Após um contratempo nos anos 2000, levando Chiquita à beira da falência, a empresa hoje divide o mercado com produtores independentes e o setor varejista, em especial os supermercados, que passaram a dominar o comércio e distribuição da fruta.

Mas em 2014, a história da banana ganhou um novo capítulo. Com a compra bilionária dos brasileiríssimos Safra e Cutrale, Chiquita mudou de nacionalidade. A empresa, agora, é parte de um império maior que ela mesma: avaliada em US$ 5 bilhões, a produtora Cutrale controla mais de 33% do setor mundial de suco de laranja e é a maior exportadora individual do Brasil.

Resta saber se a fruta encontrará sua salvação sob a direção de uma nova bandeira.