a mensagem que ele nunca enviou

Então. Sei que já é tarde em vários sentidos. É madrugada e já se passou dois anos desde que terminamos. Cheguei tarde demais. Acontece que já faz um bom tempo que penso nisso, mas quis te proteger (e por um lado, me proteger também) de reviver todo aquele sofrimento. Para começar, eu queria te dizer que jamais planejei te fazer passar por tudo o que você passou.
Eu sou um babaca e jamais vou superar isso.
Eu também queria te dizer que você foi a coisa mais incrível que aconteceu comigo em toda a vida. E que todos aqueles clichês que provavelmente te disseram quando te machuquei – de que eu não te merecia – eu só queria te dizer que são todos reais.
Eu não te merecia.
Eu te prometi um mundo incrível ao meu lado e bati os pés jurando que jamais te faria mal como aqueles idiotas fizeram com você no passado. Por muito tempo eu acreditei nisso. Mas a real é que fui mais um dos imbecis que passaram na sua vida.
Depois desse tempo todo, eu tinha certeza que teria te superado e poderia lembrar de você com carinho e continuar minha vida.
Acontece que a vida nos prega peças e dá muitas voltas, como você mesma sempre acreditou. Eu queria te dizer que você estava certa o tempo todo, e se ainda te conheço, sei que você vai sorrir agora porque você é extremamente teimosa e realmente acredita que está sempre certa.
Pois bem, desta vez você estava certa.
Depois de você, passei por um longo período de recuperação e reconhecimento pessoal. Achei que tinha tomado a decisão certa ao te deixar ir. Achei que o que eu queria mesmo era não estar você, por mais que doesse em mim.
Eu não me importo nem um pouco se tiver que passar o resto da vida me humilhando e lutando por você, se for isso que vai me trazer você de volta.
Mas se você não me quiser mais, nem se dê ao trabalho de responder essa mensagem, enviada no meio da madrugada de terça-feira. É patético, eu sei. Eu jamais pensei que seria esse tipo de cara.
Meu peito tá inchado e eu não consigo respirar. Acho que para dar o basta eu precisava te contar a verdade.
Essa verdade de que depois de você eu me apaixonei diversas vezes por inúmeras garotas. Eu desapaixonava na mesma velocidade, também. Um dia cheguei até a quase namorar alguém.
Isso é para tentar te explicar como foi que eu descobri que tudo que quero para mim é você.
Todos os caminhos sempre me levavam a você.
Numa dessas minhas paixões, conheci uma garota que era exatamente o que se espera que eu vá gostar em alguém: adorava Donnie Darko e seu filme preferido era o da Amelie Poulain. Me interessei logo de cara. Mas na mesma intensidade em que curti, descurti. Um dia, conversando com ela sobre filmes e ouvindo-a dizer em que momento ela descobriu que Amelie Polain era o filme “dela” eu pensei em você. Eu pensei na cara de tédio que você faria para essa conversa chata. Lembrei de todas as vezes que você não teve vergonha nenhuma de assumir que Amelie Polain era um saco e um dos filmes mais sem sentidos que já tinha assistido. Também recordei que, provavelmente até hoje, você não saiba absolutamente nada do que aconteceu no filme do Donnie Darko (mesmo que eu já tenha perdido horas tentando te explicar). Me peguei rindo sozinho disso, você é tão patética e tão fora do padrão hipster-alternativo do pessoal de comunicação. Quer dizer, todo mundo que gosta de filme bom entende que esses filmes são incríveis. E você não. Você odeia eles e faz questão que todos saibam. Até porque você não gosta de filmes bons, né. Enfim. Quando ri, fui surpreendido pela menina me perguntando do que eu estava achando graça. Aí ela começou a falar sobre outros filmes cult. Nem vale aqui citar que os preferidos dela são os meus também, porque eu lembro direitinho dela dizer que não aguentava mais a galera dizer que As Branquelas e Se Beber não Case eram os filmes mais engraçados da face da terra, até porque eram filmes de sessão da tarde. Vale lembrar que eu sempre concordei com ela. Mas naquele momento eu só conseguia pensar que você sempre adorou esses filmes e provavelmente até hoje ri da frase “Not you, fat Jesus”. Sim, você está rindo lembrando agora, né?
Teve uma outra menina também que se dizia uma das maiores fãs de The OC que existia, mas tinha vergonha de admitir porque era série de adolescente. Aí eu lembrei do seu quarto com quadro do OC, livro e várias fotos do Adam Brody espalhadas e me desinteressei por ela também.
Uma vez tive um caso com uma moça que também estudava arquitetura. Então nossos assuntos preferidos eram sobre lugares da Europa que tinham estruturas incríveis. Outro assunto também era sobre os trabalhos de aula, professores e colegas. Aí me dei conta que não tava nem aí para as notas dela em projeto, ou desenho, ou se tinha rolado treta na turma com aquele professor chato de novo. Me dei conta mesmo que o que eu queria ouvir era sobre a droga do jornalismo que não dá dinheiro, os professores musos da sua faculdade e as tretas com a coordenação do teu curso. Porque, depois de tanto tempo, me dei conta que eu prefiro saber tudo do jornalismo do que qualquer coisa sobre a arquitetura. Porque tu sempre deu um brilho especial pra tua profissão, um brilho que espero encontrar um dia.
Teve uma outra vez que eu e uma garota saímos para comer pizza. Foi divertido porque ela era exatamente como eu: adorava praticamente todos os sabores de pizza, menos os que tinham as famosas rações de passarinho e folhas verdes e os legumes. Na hora que a pizza de brocolis chegou, ambos fizemos cara de nojo. Obviamente naquele momento eu já me dei conta que não daria certo porque mais uma vez lembrei do quanto teria sido muito mais legal te achar a esquisitona que adora brócolis do que fazer nojinho com uma garota como eu.
Ainda sobre comida, conheci uma outra moça que adorava churrasco. Eu até cheguei a apresentá-la pro pai e para a mãe, mas foi extremamente estranho ver ela comer aquela carne com tanto gosto e os pães com alho da mãe. Parei para imaginar como seria chato se eu tivesse um filho com ela. A criança comeria carne direto e não entenderia porque zoológico é horrível e turismo com animais deveria ser crime. Fiquei triste, porque por mais que eu nunca consiga parar de comer carne, eu sempre achei que seria incrível ter uma filha vegana contigo.
Outra vez, essa mesma menina amante de animais mortos, me convidou para tomar um café um dia à tarde. Foi estranho porque ao chegar lá, ela queria comer sanduíche, hambúrguer ou qualquer coisa salgada que tivesse disponível. Ela inclusive mencionou que os doces de lá eram muito doces. Eu imaginei a tua cara de decepção vendo alguém falar que prefere salgado. E a tua cara de furiosa depois de ouvir que um doce não pode ser doce demais porque fica ruim.
Eu tentei te encontrar em todas as pessoas que passaram por mim nos últimos anos, sem nem perceber. Eu comparei todas elas a você, u tempo todo. A realidade é que você é única numa forma que eu jamais vou compreender.
E, se você me permitir, estou passando aí na sua casa agora – no meio da madrugada – para te levar uma panela inteira de brigadeiro para comermos enquanto fazemos maratona dos seus filmes preferidos.
E, no fim de semana, te levo para onde você quiser.

Te amo.

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