Resenha do texto “Os Usos da Raiva: Mulheres Respondendo ao Racismo”, de Audre Lorde

LORDE, Audre. The Uses of Anger: Women Responding to Racism. Keynote presentation at the National Women’s Studies Association Conference, Storrs, Connecticut, June 1981.

O texto analisado pode ser traduzido livremente para “Os Usos da Raiva: Mulheres Respondendo ao Racismo”. Sua autora é Audre Geraldine Lorde, nascida em Nova York, em 1934, e morta em 1992 de um câncer de mama, a qual foi uma poetisa, feminista interseccional e ativista negra e lésbica. A autora faz questão de enfatizar seu lugar no mundo sempre que fala em público, o que traz em si a noção da perspectiva interseccional.

No presente texto, Audre trata dos usos da raiva e da relação entre as acusações das mulheres brancas e a superação do racismo. A raiva pode ser libertadora e, enquanto não descobrirmos outra maneira de nos expressar, é um recurso necessário. A autora aponta o discurso de mulheres brancas que acusam as mulheres negras de, por meio da raiva, impedir o diálogo ou mesmo trazer apenas falta de esperança.

Mas a raiva é justamente uma forma de expressão do ódio contra o racismo diário, cujas situações são exemplificadas no texto. Para Audre, racismo é “a crença na inerente superioridade de uma raça sobre todas as outras e, assim, o direito de dominação, manifesto e implícito”. Desse modo, mulheres negras respondendo com raiva estão, na verdade, respondendo ao ódio da exclusão, do privilégio não questionado, das distorções raciais, do silenciamento. Para a autora, ainda, deixar de expressar a raiva para não despertar culpa nas mulheres brancas não é uma forma efetiva de emancipação, pois além de ser uma forma de silenciamento, a culpa em si é apenas mais uma expressão de cegueira racial. E a quem essa cegueira beneficia?

O texto em si é atual, pois o estereótipo da mulher negra raivosa permanece em 2017. No texto “Jout Jout, Clarice e o Feminismo Branco”, de 2015, a feminista negra Gabriela Moura expõe a comodidade das mulheres brancas em ouvir apenas a si mesmas. A autora foi massacrada por feministas brancas em caixas de comentários, que a acusaram de tentar dividir o movimento.

Este é apenas um dos diversos exemplos que podemos encontrar hoje no movimento de mulheres brasileiro, o qual demonstra a atualidade da discussão travada por Audre Lorde e de como é importante resgatar ativistas que caminharam antes de nós. Audre trata ainda da acusação de “superioridade moral” de mulheres que se enquadram em outras formas de opressão para além da de gênero, afirmando que há diferença entre sofrimento e fúria, entre raiva e autoridade moral.

Em 2017, ainda há muitos pingos nos is a serem colocados, e o pensamento de Audre Lorde, que ousou falar, pode e deve nos estimular a expressar a nossa raiva, enquanto ela for necessária.

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