Eu só queria; mas o machismo não deixa

Ser mulher é habitar uma prisão da qual não decidi fazer parte: às vezes vejo as grades, às vezes vejo a distância do céu que me cerca. Ser mulher é não conseguir fugir, porque minhas barreiras sociopolíticas me aprisionam e me modelam. 
Mas então o que o machismo faz por mim?

O machismo não permite que eu entenda quem eu sou. Ele me priva da liberdade de ser só indivíduo: não consigo refletir sobre o que é ser gente sem refletir sobre o que é ser mulher. Ele me tira o luxo de ter certezas ou incertezas pessoais, porque elas sempre esbarram em duplos padrões. À qual dos lados pertenço? Reforço ou enfrento meu papel na sociedade?
Eu só queria poder ir além das polarizações.

E o machismo me polariza. Às vezes ele me faz achar que ser obediente é seguir meu destino. Outras vezes ele me faz achar que eu tenho que ser o oposto da subordinação — segura, forte, certa de mim. Ele me faz crer que minha natureza é afetiva e não assertiva; mas também me faz crer que sempre devo tomar decisões independentes de quaisquer opiniões externas (principalmente das masculinas).
Eu não queria que me me colocassem em pedestais nem em sarjetas.

O machismo não me deixa ir além do que esperam de mim. Ele não me deixa querer ficar em casa, lavar a louça, mas também me impossibilita de liderar e não ouvir, "olha como é uma mulher 'forte', "olha como ela é autônoma, soberana, certa de si". Ele me prova que reafirmar minhas escolhas enquanto mulher "independente" reforça uma experiência que nem sempre é fácil, e muitas vezes é paradoxal — como se habitasse um espaço de machismo e feminismo simultaneamente. Porque tudo que eu faço vira uma amostra do que a mulher pode ou não pode fazer (e ainda assim, qual tipo de mulher?). Me retira a verossimilhança de só ser humana.
E eu só queria ser humana.

O machismo me diz que se eu for fraca, reproduzo estereótipos de gênero, se sou forte, vou contra eles; mas existe saída além de estar sempre nadando contra os estereótipos? Qualquer resposta ao machismo tem como ponto de referência o próprio machismo. Ele só me permite os extremos: eu nunca ganho, porque o papel desse tipo de sociedade está em me objetificar.
E eu só queria poder ser sujeito.

O machismo me faz pensar que ele também machuca os homens; mas será que eu não quero o machismo por causa de mim ou por causa deles?
Eu só queria não ter que pensar na dor dos opressores.

O machismo me retira a dor solitária, a individualidade. Eu gostaria de entender o que significa me vulnerabilizar e não ser entendida como mais uma mulher que se vitimiza. Eu gostaria de entender o que é vocalizar minha dor podendo me dar ao luxo de sentir a minha espiritualidade. Eu só queria ser compreendida como um ser humano complexo; pessoa que pertence a um grupo mas que também é só mais uma nesse planeta, sem saber pra onde está indo; buscando seu caminho. O machismo me arranca a oportunidade de me separar da maneira com que a sociedade me vê. Me tira a escolha. A escolha de ter um caminho individual ou espiritual que não sejam meras consequências do meu gênero.
Eu só queria mostrar as muitas que me habitam.

O machismo (e o feminismo que não é interseccional) não me confronta com a dura realidade de que nem todas as mulheres têm o luxo de se sentirem da forma que eu me sinto agora enquanto escrevo esse texto. De que o privilégio do meu grupo de mulheres nos cega para a consciência das dores daquilo que é diferente entre nós. De que minha experiência é uma fração do que é ser mulher em uma sociedade que não é só machista, mas que também é homofóbica, racista, classista. Fomos ensinadas a continuarmos adormecidas à essas discriminações, e mesmo acordar é uma regalia de quem algum dia pôde dormir.

O machismo não me deixa esquecer que eu carrego no peito o que é ser menor. Ele me lembra de acordar e sentir a dor de todas as mulheres que vieram antes de mim. O feminicídio, a misoginia, a objetificação do útero que gera seres subjetivos. 
Eu queria me dar ao luxo de achar que as coisas que eu sinto vêm só de mim. Mas a minha dor é coletiva. Minha dor não acaba até a dor de todas as mulheres acabar.

O machismo não me deixa fugir das caixas. Continuo presa, insistindo na tentativa de sair, descrevendo o interior delas.
E eu só queria voar.