“La Haine”, o filme de 22 anos que nunca deixou de ser relevante

“É a história de uma sociedade que cai, e durante sua queda continua a repetir para si mesma: ‘até aqui, tudo bem…até aqui, tudo bem…até aqui, tudo bem…’. Mas o importante não é a queda, é a aterrissagem.” Essa é a anedota que resume o filme francês “La Haine” (O Ódio) de 1995 e também, assustadoramente, a situação do mundo hoje em dia.

O filme de Mathieu Kassovitz tem um enredo relativamente simples: três amigos que moram num subúrbio de Paris, deslocados e desmotivados pela pobreza e pelo desemprego e sem perspectiva para o futuro, Vinz, um judeu, Hubert, um negro, e Saïd, de ascendência árabe norte-africana, têm suas vidas abaladas quando seu amigo Abdel se encontra em coma, vítima de brutalidade policial em uma manifestação. Vinz, o mais raivoso dos três jura vingança a qualquer policial que ver pela frente se Abdel morrer. Foi o primeiro filme francês que retratou as banlieues, os subúrbios que no início do século XX foram motivo de orgulho para seus moradores, que se mudaram para lá para fugirem da imundície e precariedade da cidade grande.

Se o ano ainda fosse 1995, você provavelmente iria estranhar tanta diversidade num filme francês, e ainda se questionaria se na terra do Moulin Rouge, da boemia despreocupada e cenário dos mais belos romances da literatura poderia existir pobreza e violência.

Pois a França em 1995 era um lugar sombrio. Uma série de tiroteios e bombardeios possivelmente ligados a uma guerra civil que ocorria na Argélia assombrou o país, atingindo pontos emblemáticos de Paris, como o Quartier Latin e o Arco do Triunfo. Além disso, uma onda de greves se espalhou em resposta às medidas de austeridade do então primeiro ministro Alain Juppé. Naquele ano, a França parou.

Apesar disso, bem longe da muvuca, no Festival de Cannes, com direito a muito champagne, o filme foi aplaudido de pé. Não sem uma pequena confusão do lado de fora, onde os policiais a trabalho deram as costas a Kassovitz e sua equipe, ressentidos por acharem que o filme se resumia a uma propaganda anti-polícia. A influência do filme foi tão forte que inspirou uma manifestação poucos dias depois de sua estreia em Noisy-le-Grand contra a morte de um beur (gíria atribuída a descendentes de norte-africanos) que se envolveu num acidente de moto enquanto fugia da polícia. Jean Marie Le Pen, pai da agourenta presidenciável de extrema direita, exclamou na época que aqueles bagunceiros deveriam ir para a cadeia. Juppé ainda pediu que o filme fosse exibido a oficiais do governo.

“La Haine” foi na verdade inspirado na história de dois jovens vítimas de violência policial. Para dar mais uma camada de realidade, a obra começa com gravações de conflitos entre policiais e manifestantes nas ruas de Paris. Um deles diz: “para vocês é fácil atirar em nós, nós só temos pedras.” Tudo ao som de Burnin’ and Lootin’ de Bob Marley and The Wailers (Tudo o que nós tínhamos, parecemos ter perdido / Nós devemos ter realmente pago o preço).

Os três amigos estão em constante estado de tensão. A sensação que temos é a de que a qualquer momento algo explosivo pode acontecer. Hubert é o mais sensato do grupo e odeia violência. Saïd é o mais inocente, com hormônios á flor da pele e tentando construir sua identidade em meio ao caos. Vinz é o que mais tem sede de vingança, e a partir do momento em que rouba a arma de um policial perdida nas manifestações experimenta uma falsa sensação de poder, como se pudesse mudar a realidade com um tiro. Os três são claramente outsiders, mas Vinz, sem conseguir se identificar com seus ancestrais e sendo um pouco mais privilegiado que os outros dois, toma as dores de seus amigos mais marginalizados, tentando encontrar seu lugar nessa batalha. Isso fica claro na cena em que tenta justificar sua vingança para Saïd: “Você quer ser o próximo árabe a ser morto numa delegacia?” — ele pergunta. Quando Saïd diz que não, Vinz responde: “nem eu.” A cena mais famosa do filme é certamente a que Vinz reproduz a cena de Taxi Driver (clássico de Scorsese) em que Travis Bickle, seu ídolo marginal, treina movimentos com sua arma na frente do espelho. A arma torna-se seu único modo de expressão no mundo externo.

A influência americana não para por aí, seja na trilha sonora repleta de hip hop ou na fórmula de retratar um dia inteiro em um filme, mais notória com “Faça a Coisa Certa” de Spike Lee (1989), inclusive um ótimo retrato da tensão racial nos EUA.

Na segunda metade do filme, o deslocamento dos amigos fica ainda mais evidente quando eles vão ao centro de Paris. O mundo não está preparado para eles e vice-versa. A cena em que os três entram de penetra em uma exposição de arte e tentam convencer duas mulheres a saírem com eles do jeito mais tosco possível é tragicômica. Ao tentarem roubar um carro e falharem, fugindo da polícia, eles batem de frente com skinheads. Aí, o preconceito fica escancarado, as máscaras caem. Vinz se vê diante da oportunidade de finalmente usar sua arma. Daí em diante o filme caminha para o seu ápice e nos deixa com uma sensação de mal estar, reafirmando o que a maioria de nós já sabe: o ódio gera mais ódio, e esse loop tem que acabar, mas isso está longe de acontecer.

Numa época em que personagens como Jair Bolsonaro e Robert Ménard (prefeito de Béziers, no sul da França) podem proclamar a torto e a direito frases como “minoria tem que se curvar à maioria“ e “ser francês é ser europeu, branco e católico”, “La Haine” deve ser visto, revisto e discutido incansavelmente.