Lugar de mulher

Mulheres programadoras estão abrindo caminho entre os homens e mudando a cara da tecnologia

Para elas, Barbie, jogos de panelas e minifogão. Para eles, Lego, videogame e quebra-cabeça. De um lado, todas as qualidades que se esperam de uma mulher “respeitável“ na sociedade, projetadas de uma só vez. Do outro, o estímulo ao raciocínio lógico e às habilidades científicas, visando uma carreira brilhante no futuro.

A falsa narrativa de que meninas não gostam ou não são boas o suficiente em matemática e ciências já começa antes mesmo de elas nascerem. Não é à toa que muitas desistem da carreira aos 12 anos. Essa ideia projetada na cabeça de jovens meninas se reflete na vida adulta. Das mulheres que chegam a ingressar em cursos nas faculdades, 79% desistem no primeiro ano, segundo dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios).

O curioso é que a primeira pessoa da história a programar foi uma mulher: Ada Lovelace, matemática e escritora inglesa que escreveu o primeiro algoritmo para ser processado por uma máquina, a máquina analítica de Charles Babbage.

Mas é preciso dizer que as coisas estão melhores nos últimos anos. Na lista da revista Forbes das “100 Mulheres Mais Poderosas do Mundo”, 16 delas são líderes na área da tecnologia, como Sheryl Sandberg, chefe de operações do Facebook, indicada pelo quinto ano consecutivo, e Susan Wojcicki, CEO do Youtube. Imaginem a surpresa do leitor ao saber que dois gigantes da internet são comandados por mulheres.

Como bem apontou Iana Chan, 28, formadora e idealizadora do PrograMaria, coletivo para mulheres que queiram ou que já trabalhem na área de TI, a dificuldade já começa antes mesmo das meninas tentarem. “A educação de uma menina é muito pautada no ‘não’. Não pode usar saia curta, não pode brincar na rua, não pode se sujar. A gente educa meninas para serem perfeitas, enquanto encorajamos meninos a serem corajosos, desbravadores, ambiciosos, presidentes e executivos. ” E é só a partir do modo como educamos esses meninos e meninas, em casa e nas escolas, que esse cenário pode mudar.

Foto: PrograMaria

No Brasil, diversos coletivos inspirados por esse pensamento, criados por e para mulheres surgiram ao longo dos últimos anos, como o já citado PrograMaria, o PyLadies, que foi criado por sete mulheres em Los Angeles e é mais focado na programação em linguagem Python, e conta com cursos, workshops, palestras e até piquenique em todo o Brasil, e o Girls In Tech, que tem sede em São Francisco, na Califórnia, mas que conta com vários polos em todo o mundo, incluindo América do Norte, Ásia-Pacífico, Europa, Oriente Médio, África e América do Sul, e no Brasil é co-liderado por Monique Almeida, 35, “farmacêutica de formação, mas empreendedora de coração”.

Surgidos a partir da frustração em comum com o baixo número de mulheres no mercado, apesar do alto número de consumidoras, os coletivos pretendem quebrar barreiras e mostrar que ser mulher não deve ser um impeditivo para nada.

Diferente do que pensa uma parcela sexista da população (e aqui estamos falando de mulheres também), essa junção de tantas moças estimula o senso de amizade e coletividade, e não de competitividade selvagem. Esses ambientes servem de apoio para aquelas que haviam perdido a confiança em si mesmas quanto às suas capacidades. “As mulheres são muito unidas. Hoje eu já acabei meu curso, mas a gente ainda tem grupo no WhatsApp, a gente conversa, se alguém tem um projeto novo, uma ajuda a outra”, diz Vilmara de Oliveira, 21, ex-aluna do PrograMaria.

Longe de ser o estereótipo “nerd” atribuído a quem trabalha na área, Vilmara, de batom rosa e camiseta do coletivo (“pra fazer propaganda”), chega sorridente num café movimentado na Avenida Paulista. Em off, falamos sobre amenidades como cabelo e cosméticos, como não poderia deixar de ser, com três mulheres no recinto.

Os workshops “tradicionais” podem ser desmotivadores, com uma maioria esmagadora de homens presentes. Além disso, o assédio é constante. “Alguém se aproxima e você acha que quer fazer um networking, uma amizade ou desenvolver algo juntos, e aí você acaba abrindo espaço para as pessoas, só que elas começam a levar pro outro lado.” Cansada dessas situações, Vilmara pesquisou por conta própria na internet iniciativas para mulheres na área de TI, até que encontrou o PrograMaria. “Me senti super acolhida, não tinha tanto medo de falar alguma besteira. Não me sentia tão mal quanto num ambiente com homens, onde estão sempre te julgando”.

Vilmara de Oliveira, 21, ex-aluna do PrograMaria

O ambiente de trabalho também pode ser cheio de pessoas nonsense. “Uma vez me perguntaram por que eu não ia de saia para o trabalho”, conta Beatriz Uezu, 22, ex-aluna e hoje uma das organizadoras do PyLadies. Essas situações corriqueiras costumam ser minimizadas. Alguns homens gostam de apontar que essas mulheres estão “se fazendo de vítima” e que, na verdade, está tudo ótimo.

Outros ainda tem o pensamento retrógrado de que esses coletivos são sexistas e os “excluem”, mas Iana argumenta que o que elas fazem é “incluir as mulheres”. A maioria do feedback para todos esses grupos é positiva e cada vez mais empresas querem ajudar nessas iniciativas. Inclusive, para quem ainda não se conveceu de que muitas mulheres se interessam pelo assunto, saiba que a primeira edição do curso de desenvolvimento web “Eu Programo”, pelo PrograMaria, teve quase 1000 inscrições para 30 vagas. A ideia de que as mulheres não se interessam por tecnologia é uma falácia, o que faltam são oportunidades.

No outro espectro desse mundo tecnológico, nasce um coletivo ainda mais específico. A PretaLab (elas preferem ser chamadas pelo artigo feminino), idealizada por Silvana Bahia, 31, foi criada no dia 17 de março, no Rio de Janeiro, dá palestras para meninas e mulheres negras e indígenas que querem ingressar ou tem curiosidade sobre a área de TI, além de fazer um mapeamento online dessas mulheres pelo Brasil para coletar dados, dando voz e visibilidade àquelas que já chegaram lá, seja nas áreas mais técnicas, como engenharia ou desenvolvimento web, até criadoras de conteúdo, como youtubers e blogueiras. Cá entre nós, se o mercado não necessariamente recebe de braços abertos mulheres brancas, que dirá de mulheres negras? “Posso contar nos dedos quantas mulheres negras vi em eventos de tecnologia”, relata a própria Silvana.

Outro espaço dedicado à visibilidade das mulheres negras é o Blogueiras Negras, uma comunidade de aproximadamente 200 autoras que reúne histórias de vida e pautas das mais diversas, desde política a saúde e beleza, em torno de questões sobre negritude, feminismo e produção de conteúdo.

A pergunta que surge num primeiro momento para quem não está no meio (e posso dizer que me incluo nesse grupo) é o porquê de iniciativas apenas para mulheres negras, se em geral já existem tão poucas mulheres na tecnologia. Silvana explica: “A inserção das mulheres negras nesse espaço é extremamente política, porque hoje em dia a gente lida muito com o digital. Ele está ligado a nossa vida cada vez mais, e, se a gente não sabe muito sobre como esse mundo está se configurando e como ele funciona, é muito ruim porque a gente acaba perdendo muita capacidade de intervir no mundo. Se esse acesso chega a um determinado grupo, ele tem que chegar a uma maior quantidade de pessoas. E as mulheres negras, por serem a base da pirâmide social num país como o Brasil, têm que estar inseridas nesse universo.” Larissa Santiago, organizadora do Blogueiras Negras. completa: “Acredito que o primeiro passo dos níveis de importância da inserção delas nesse mercado é a própria mulher negra se dar conta de que compõe esse espaço, lida com tecnologia e tem conhecimento sobre. Porque esses lugares [ocupados por homens brancos] nos dizem que não sabemos, nunca chegaremos lá e que não é para nós. Então, se dar conta de que o que se faz é produzir e lidar com tecnologia é o primeiríssimo passo, e quando isso acontece, — geralmente vindo do olhar de outra mulher negra, é fantástico.” Convido o leitor a fazer um exercício rápido: feche os olhos e imagine um profissional de TI. Certamente a imagem de uma mulher negra não veio a sua mente. Silvana definitivamente sofre com esses estereótipos, ainda que na maioria das vezes não seja de forma escancarada. “Fujo um pouco da caixinha, sou uma mulher negra e gorda e não é o que estão esperando.”

Silvana Bahia ao microfone no lançamento da PretaLab. (Foto: Ana Clara Tito)

No site da PretaLab, o coletivo faz questão de mostrar dados desanimadores sobre a situação da mulher negra na área de TI, pois como Silvana disse sabiamente, sem dados não há política. São eles: 19 mulheres foram citadas na história da ciência no Brasil pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Nenhuma delas é negra. Entre as startups comandadas por mulheres, apenas 4% o são por mulheres negras. Isso nos EUA. Não se tem conhecimento desse dado no Brasil, mas não precisa ser um gênio para saber que por aqui a situação é ainda pior. Em 120 anos, a Escola Politécnica da USP formou apenas 10 mulheres negras.

Sobre a falta de incentivo, Silvana ainda cita a polêmica questão das cotas raciais em universidades brasileiras: “criar cota é importante, é legal, mas além disso tem que pensar em como elas [mulheres] permanecem ali [na universidade], porque viver em um inferno não é bom”.

Como nesse meio faltam referências positivas, a PretaLab aposta em ações de comunicação nas redes sociais. Uma delas é postar vídeos curtos no Facebook de mulheres negras relevantes na área de tecnologia, a fim de inspirar meninas negras que queiram ingressar nesse meio.

Se mesmo depois de ler essa longa reportagem o leitor ainda não se convenceu das diferenças absurdas entre homens e mulheres em ambientes de trabalho, o convido para pesquisar e refletir sobre um caso recente de discriminação de gênero nos EUA. Martin Schneider, um blogueiro da Filadélfia, relatou na sua página no Twitter um episódio que ocorreu em uma agência de empregos na qual trabalhava. Em um belo dia, Schneider estava trocando e-mails com um cliente grosseiro e desdenhoso a respeito de seu currículo. Quando finalmente se cansou do temperamento dele, Schneider percebeu que acidentalmente assinou todos e-mails como Nicole [Hallberg], sua colega de trabalho com a qual dividia a mesma conta, e que recebia críticas de seu chefe por demorar muito para lidar com clientes. No instante em que Schneider fez a troca de e-mails, o progresso foi imediato: o cliente respondia prontamente e agradecia a todas as sugestões de Schneider. Logo, não é preciso pensar muito para chegar à conclusão de que o motivo da “demora” de Nicole era o fato de ela ter suas decisões questionadas o tempo todo, o que a impedia de avançar em seu trabalho.

Apesar de a humanidade ter avançado incrivelmente, ainda existe a velha polarização entre “coisas de menino” e “coisas de menina.” O que esses coletivos propõem, é apenas uma porta de entrada para esses espaços, e, a partir daí, inspirar e encorajar as mulheres, negras, brancas e indígenas a cobrar e lutar por políticas públicas que viabilizem sua qualidade de vida profissional, pois, como pondera Larissa, não basta inserí-las nas universidades e no mercado, e tornar inviável a permanência delas, sem lhes dar poder de voz e fazer a sociedade entender que lugar de mulher é onde ela bem entender.