O ano é novo, mas o café é velho!

“Fiquei feliz por perceber que ao menos têm uma lata de nescafé. Sempre que alguem tem uma lata de nescafé entendo que nao está totalmente na miséria; ainda pode resistir um pouco.” Julio Cortázar, O perseguidor

O Ano-Novo tem gosto de café

E 2015 acabou, para iniciar 2016 logo em seguida. Por mais que eu adore o clima de renovação e esperança que cerca o Ano-Novo, não dá para estalar o dedinho e acabar com os perrengues do ano que passou. Bem que eu gostaria de uma fada-madrinha-da-Cinderela-ao-contrário, que ao soar as doze badaladas da meia-noite não me fizesse virar abóbora mas sim sumisse com tudo que há de ruim no mundo. Mas não rola.

Durante praticamente todos os meses do ano passado, ouvi que o Brasil quebrou e não tem salvação, que vivemos a pior crise desde 1929, que o jornalismo morreu, que não dá para competir com criatividade de bandido, que os relacionamentos são todos descartáveis, que não existe mais nada após os 40 (embora nossa expectativa de vida não pare de aumentar), que as mulheres são todas vagabundas, que todo homem é um estuprador em potencial, que não existe honestidade na política, que a única solução é o asteroide etc.etc.etc. Enfim, o poço tem fundo e já chegamos nele. Isso porque nem mencionei os desastres ambientais.

Longe de mim acreditar que é intriga da oposição. Uma rápida passagem pelo noticiário — de qualquer matriz ideológica — mostra que não faltaram motivos concretos para nos preocuparmos com todas essas questões e muitas mais. Por causa exatamente disso, 2015 foi o ano de liberar a Pandora que existe em mim e fazer o ceticismo ceder mais espaço para a esperança. Em meios às tensões e incertezas da economia, da política e da vida, 2015 foi o ano de encontrar aquela simbólica latinha de nescafé e fazer um bom uso dela. De não transformar em tragédia o que não é tragédia, de não ignorar as crises, mas saber identificar oportunidades. De fazer humor, e não a guerra. De poder caminhar no meio das turbulências, que não foram (ou melhor, não são) poucas. De fazer o nescafé me ajudar a resistir bastante, e não um pouco como sugeria Cortázar. Ainda bem!

Assim, em meio aos textos com dicas para 2016, venho dar o meu pitaco com uma das únicas que conseguir seguir à risca: achar uma latinha de nescafé e tentar seguir em frente. No ano que passou, diferentemente do que as listas de resoluções sugerem, eu repetir alguns erros, não experimentei uma coisa nova todos os dias, não contribuí para promover a paz mundial e não sei se me tornei uma pessoa melhor do que era em 2014. Mas a latinha de nescafé, essa sim eu aproveitei bem. E conto com ela para encarar o ano que chegou. Cheers!