A CURVA

Rio adentro. Sendo nau e proa navegando a si mesma. De tudo queria o maior dos segredos. Vento que movia os silêncios, deitando sobre a imensidão das terras e das águas.

Desde criança, apesar de não se recordar, Joana vivia de sentir. E como sentia! Viver, para ela, sempre foi uma dádiva, dessas que precisa ser agradecida e reverenciada à todos os minutos. Era uma jovem bastante segura, por conhecer um pouco de tudo. Nunca hesitava ao fazer uma escolha, ou dar uma opinião. Mas, de uns anos pra cá, ela foi sendo tomada por uma gagueira tímida; por uma hesitação própria de quem abandonou as certezas da vida. E desde que fora abandonando essa segurança, Joana seguiu: desatentando… desfazendo… desenrolando o fio das coisas. Quem a olhava não podia perceber que, devagar, feito um balão colorido, ela subia céu acima — lentamente — fecundando a barriga do mundo…

Naquela manhã, o céu ameaçava chuva, mesmo assim, Joana decidiu ir à praia. E para sua surpresa, ela não foi a única a desafiar o tempo. A orla estava cheia: moças estendidas nas cangas, surfistas remando suas ondas, Jovens jogando frescobol, ambulantes vendendo de um tudo e crianças, com seus baldinhos, correndo do mar para a areia e da areia para o mar - eriçadas feito pipas. Essa alegria característica da praia cheia, transformava Joana. Ela olhava tudo, admirada, colhendo os detalhes, sorrindo para as pessoas, brincando com a espuma que ia e vinha sob seus pés.

Aos seus olhos, existia algo de mágico nesses desejos que se delineavam à beira do mar. É que de alguma maneira, percebia que a grandeza da vida escorria pelas fendas do cotidiano e se mostrava nas falhas - nas lacunas: O Miráculo. E devolvendo cores ao que jazia do mundo encontrado demais para o erro, a praia talvez fosse o único lugar onde Joana sentia que poderia salvar-se de si mesma.

Buscava perder-se no tempo. Seus sobrados olhos deixavam para trás, todo o trecho onde os prédios faziam frios retratos… E ia, peregrina: desacertando o lugar onde o relógio lhe marcava a pele — Afundando seus pés na areia — entornando Alma e nascendo a cada passo — fixando (com c’alma) sua memória — durando suas marcas pelo caminho…

Enquanto caminhava, as nuvens dispersavam e há poucos minutos o céu tinha firmado sol. Mas, para Joana a sensação era de muito calor. Chegou a sentir uma leve tontura e um peso na nuca. Joana, não tinha o costume de inverter a direção de sua caminhada, mas alguma coisa incomum estava acontecendo com ela e, por isso, sentiu vontade de voltar. Absorta, resistia aos apelos e continuava andando com os olhos fixos no horizonte. Via a extensão da orla: à direita o pesar e a sombra dos edifícios, à esquerda o mar. Via ao fundo o início da restinga — era lá que passava as tardes mergulhada nas leituras de seu livro preferido. Ler era o seu jeito de não estar só. Mas, o estranho calor que sentia na nuca enfadava seus pensamentos e Inundava — feito mar — seu corpo em suores e cansaços que secavam a boca. Quanto mais caminhava, mais sentia a necessidade de regressar. Seu corpo persistia sem forças.

Por que tudo parecia mais atrás do que de costume?

Sentiu uma pontada no estômago. Seus joelhos estavam fracos, tombando o peso das pernas. Tentou dar ânimo ao corpo, mas estranhamente não conseguiu. Era o calor, só podia ser o calor. Nunca havia sentido tamanho mal estar, ao menos não se lembrava de algo parecido. A restinga estava bem próxima… Joana decidiu continuar. A aroeira! — pensou. A sombra da árvore e, um pouco de água, era tudo que ela precisava para se sentir melhor. Tentou manter o caminho, mas era inútil, ela estava cada vez mais fraca. Por um segundo, provou de uma incontrolável vontade de jogar-se nas águas, entregando seu sal para purificar os sentidos, mas antes mesmo de tentar, rendeu-se ao sul. Quando olhou para trás, seu corpo se espantou em vertigens: mal podia acreditar no que só ela via…

A Curva…

Sempre ia à praia com seus pais, barraca de sol, canga, isopor, filtro solar, irmão, cachorro e boné. A menininha guardava em seus olhos bisbilhoteira vontade. Enquanto todos faziam as mesmas coisas, ela tão pequena, sentia o mundo pelas mãos. Seu destino era se achar a cada pergunta e se perder a cada resposta. Feito uma abelhinha que de toda flor beijava o mel e de tudo queria saber mais que o nome:

_Mamãe, issozinho qui, é o que?

_ É o seu umbigo filha.

_Imbigo? E puique ele ta aqui no meio?

_Ah filha, porque ele ligava a sua barriguinha na minha por uma corda que estourou quando você nasceu.

_E puique ela estoiou mamãe? E deixou um fuio? Imbigo devia chamá fuio, num é? Ou buiaco? Eu num queia que a coda estoiasse, mamãe. Qeuia ficá com você pa sempe!

Como desejava um mundo que fosse só seu: onde as palavras dissessem o sonho e que manga fosse só a de comer… Nunca brincou como as outras crianças. Nasceu para miudezas. Podia passar horas observando o cupinzeiro que fazia mosaicos barreados, no muro da casinhola onde morava. às vezes, metia um furo com o dedinho gorducho no serpentiado caminho de terra, pó e poeira: Fiz um imbigo em você! Ponto! Agoia você já pode nasce! E assim ia acendendo sua chama, branda e azualada. Fogueira de monte e lenha grossa — tora de lei.

No caminho para a praia, que ficava a alguma distância de onde morava, a chuva banhou o céu mal tocando o chão. Servindo apenas para deixar as vistas um manadeiro arco-íris. E o mundo que se mostrava pequeno tomou gostos por infinito. A menininha, que era de uma atenção encantada, nunca vira antes algo tão bonito. Ligeira, pôs logo os seus olhinhos de formiga vidrados na janela que cantaram toda nata e nota. Seu corpinho gorducho foi tomando cores, apaixonado e trêmulo pela primeira vez:

_Mamãe, qui isso nu céu?

_Que lindo filha, é um arco-íris.

_Mamãe, onde ele moia?

_Nas nuvens, filha. Ele fica lá escondidinho e sempre que chove ele vem brincar com o sol. Ele é filho do céu.

_Mamãe, eu queio i lá binca com ele.

_Nós vamos, filha. Ta vendo onde ele termina? Lá é a praia. Quando chegarmos lá você brinca.

A menininha se transformou em esperanças e sonhosidades. Era tanta imagem sem nome, tanto nome sem coisa que o seu corpinho se confundiu e adormeceu. Também adormecera o arco-íris, desluzindo aos poucos suas cores no céu…

Quando chegaram à praia a menininha tagarelou em procuranças. Mal podia acreditar que a mãe havia mentido pra ela. Olhava para todos os cantos do céu. Vasculhava, sem pular uma, todas as nuvens que ainda estavam por perto, mas não achava o arco-íris:

_ mamãe, cadê eie? Cadê eie, mamãe? eu já pocuiei em tudo, tudo, tudo. Tudo, tudo, tudo, mas não encontei!

_ Filha, ele deve estar escondido atrás do morro. Ou então ele desceu para brincar com você. Daqui a pouco ele aparece.

Foi quando a menininha resolveu avistar olhos para o chão. E como mágica, timidamente, um pedacinho de verde brilhou para ela na areia. E depois um laranja se mostrou. E um amarelo. Mal podia acreditar: Era o arco-íris! Tinha certeza! Devia estar escondido inteirinho por debaixo da areia. Sem tropeçar nos pensamentos correu para puxá-lo pelas pontas. Mas quando chegou mais perto viu que ele não estava escondido: estava quebrado! Partidinho em mil bocadinhos e cacos. Esperta como bico de mergulhão, não demorou em perceber o que tinha acontecido. O arco-íris devia ter arrebentado inteirinho quando desceu do céu para brincar com ela. Precisava então juntar suas partes. E sem que a mãe percebesse, ela saiu em marcha, catando os pedacinhos cilíndricos…

E a Curva…

Havia algo de familiar naquela menininha… Tão pequena e tão perdida. Vestida só com a calcinha do biquíni, que era rosa no centro e nas laterais babadinhos verde-musgo, vinha sorrateira em sua direção. Tinha uma franjinha que caia sobre os olhinhos, espremidos entre a testa pequena e as bochechas coradas de sol. Gordinha e deliciosamente encantada, estava, entre todos os prazeres da praia, catando canudinhos. A menininha, não queria castelos de areia ou nadar, não queria picolés ou futebol, queria os esquecidos canudinhos de plástico, já usados e baldios. As mãozinhas estavam tão cheias que mal conseguia se equilibrar para pegar mais um.

O Corpo de Joana, desacreditava seus sentidos, imediatamente se reconheceu … Mas como poderia ser? Ainda em susto, foi se aproximando lentamente da criança, como se estivesse indo ao seu próprio encontro: remarcados pés sob antigos caminhos… Perto o suficiente, organizou a voz que sumira e perguntou:

_ Está perdida?

_ Eu to pocuiando o arco-íris pá devolve po céu.

Seus ouvidos fizeram eco. A voz saia de dentro de si. Os joelhos caíram tortos sobre as areias. Seu corpo embaraçava. O barulho do mar girava os ouvidos e ardia nos olhos. Joana, estava petrificada pelo sal. Com dificuldade, estendeu suas mãos trêmulas e os seus braços enrijecidos ao encontro da menininha. Mas não conseguia tocá-la. Os dedos duros rondavam o rostinho que fora o que será e que seria o que é. Medrosamente fechou os olhos, alcançando a testinha esquecida. E com cuidado, retirou a franja melada de sol e sal dos olhinhos da curuminha. As duas sorriram. E o mesmo brilho. E o mesmo dentinho quebrado. E a mesma praia. E o Tempo

Tudo fugia para dentro. Mar batendo forte contra a rocha das lembranças. Queria o Mundo dizer. Queria à menininha tomar nos braços e levar para casa, alimentar a boca e cuidar dos sonhos. Mas não conseguia: estava petrificada.

Por que era proibido olhar para trás?

A menininha, que admirava o mundo com as mãos — e as mãos cheias, com arco-íris que caíra do céu para brincar — ficou triste ao vê-la chorar:

_num choia não. Ele vai fica bom!

_Sim abelinha, eu vou ficar bem!

Os olhos alagados de Joana, cerravam a cada palavra da menininha. Mas, tanto amor devolvia-lhe algum movimento. Com cuidado pôs-se a abrir as mãozinhas gorduchas. De dentro, pegou os canudinhos. Em seguida, abriu o livro no meio e colocou-os. Depois pousou o livro no chão. Com delicadeza sentiu, nas suas, as mãozinhas tão pequenas. E com todo o afeto que existia por dentro, beijou as palminhas descalejadas:

_Sonhe meu amor. Sonhe com intensidade e do mundo ache tudo. Você vai ver, há muito o que cuidar nos caminhos, a começar pelo arco-íris…

_você sabe cunsetá o dodói dele?

_São pedacinhos de ternura. Só com carinho que se cola cada um deles. E isso leva tempo, meu amor. Tudo que quebra só colamos com belezas que encontramos aqui dentro. E você é a maior delas. [como me esqueci de você]…

A curuminha, ouvia tudo atentamente. Parecia que sabia… Parecia adivinhar… E o mesmo nariz. E a mesma manchinha no pescoço. E o mesmo lugar. E o Tempo…

Um beijo da menininha se fez correr sobre sua pele, sobre seu arco, sobre seus arredios pensamentos. Ainda ajoelhada e de olhos fechados, Joana levou as mãos até o beijo. Sentiu uma imensa doçura e uma enorme vontade de abraçá-la. Mas não a viu mais. A pequena havia sumido porque o relógio não parou de contar.

Era uma descoberta?

A vida se mostra no eterno instante do erro.

Nada podia lhe dar mais do que aquela dormência muda do Ser experimentada num breve encontro… Um presente. Dominar suas forças, que comprimiam no peito todas as vozes do mundo, tornou-se impossível. Joana, exalava por todos os poros, o que nem Amor podia dizer.

Como viveria dessa estranha substância que se apresentava fora do tempo, e que, no instante insurgente castrava a linguagem castradora?

Durante anos, buscou em tudo a contradição que lhe amordaçaria os sentidos, para Integrar-se por inteira à matéria-mundo, mas só conseguiu quando não sabia: se-encontrando-se-perdendo. Poderia ficar eternamente habitando esse lugar inexistente, porque incompreensível. Mas voltou. Sempre voltava para si quando o descobria. Existia demais para o ato da entrega. Na sua feitura ainda havia em abundância a frágil palavra. E desconfiava: precisava se transformar na própria mentira para viver. Silenciando para sentir…

Abriu os olhos. Por fora, tudo continuava igual. E lentamente, seu corpo foi recuperando consciências. Estava novamente no mesmo lugar, de onde nunca havia saído. Nas mãos ainda o mesmo livro, agora, amarelado. Aprumando o norte — contínuo caminho, seguiu. Fazendo de novo estrada para o céu — em cores e águas. E o sol. E a força. E a vertigem:

A curva.

Como um milagre, avistou a aroeira, que solitária guardava os segredos do chão. Seus olhos maculavam. Era a árvore entre os edifícios. Infanta e emocionada, deitou sobre suas raízes. Frondosa e inteira sonhou sonhos impossíveis sob suas folhas. Ali, em um raro lugar onde a vida nascia urgente…

Sou o maior segredo do mundo! Meu alimento é o mistério.

E ninguém nunca mais poderia enxergar o seu abismo.