ai, sonho, ai consolo
que permite que eu caia
imensamente nesse abandono

caindo caindo
de alturas tão estupendas
atravessando turbulências
e em cada romper uma estrela sorrindo

morrer
abrir as mãos, não reter
poder desmanchar arrefecer
e em queda livre somente ceder

ela se recosta na cadeira, febril. a garganta riscada pelos gritos escritos, pelos muitos gozos que agora seus dedos podiam percorrer. antes não, a única coisa que se via era a venda nos olhos, perdas, as doenças, as próprias mortes e sua feiúra, sua parca cultura e seus desacertos.

não se sabe ao certo o que chamou o lavrador, os gritos que se sucediam de parte a parte, as inquisições fundas, o fato que ela não queria querer sozinha e não via os desabrochares, os chamamentos, os pios…todas as sucessões de substantivos que não dão nome aos desvios.

os olhos ardem, o corpo reage a tão grande novidade, cabeça peso membros peso, e na manhã acordada numa mesa cirúrgica onde elos com o passado foram extirpados pra que a novidade venha plena. ela deixa vir esse pós operatório e o recebo com resignação saboreando os dias que diviso.

do próximo sol não se sabe, da luas cheias tampouco, sabe-se apenas do que ela carrega, muitas frutas, muitas flores, uns pincéis, umas cores, destrambelhadamente carregada, um sorriso tolo e uns cachos gavinhas de maracujá, prontos pra em seus dedos se enroscar.

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