Canal
menos de três horas dormidas. o salto. descortina a sedição. O Canal. a boca que escapa a palavra. tão certo tão certo. os perigos são os depois, sussurra do meu lado. sobressalto. de pé. — que que tu quer aqui? o olhar bisonho, cheio de si — vim lhe violentar — e é? — é. sento de frente a ele na cama, lótus. olho apoiando a cabeça no punho, enquanto ele bafora círculos perfeitos. um cheiro nauseabundo, extremamente acre, levemente pútrido. vejo cinzas na minha cama. franzo o cenho. — tá bom. falta muito pra terminar? ele ri, ele sabe. claro que sabe. ele se orgulha duma pretensa clarividência, de portar a luz. eu rio, encantada com aquela meninice. na camisa prata entreaberta entrevejo uma cicatriz, inflamada parece-me. queloide alta, roxa. meus dedos desobedientes correm pra tocá-la. ele espreme meus dedos. me assusto. recolho. uma tatuagem na mão sobre a minha. uma máfia? um ritual de iniciação? ele não pisca os olhos, só agora reparei. lembro da balsa onde nos conhecemos nas travessias. casa-trabalho-casa. época de muitos nevoeiros e um calor que deixava claro que o sol já vinha. lembro dos seus colegas de trabalho. homens que também não piscavam. volumes estranhos nas blusas. retorno: uma máfia. talvez milícia. teriam as mesmas tatuagens? certamente. — e essa cicatriz? pergunto preocupada. nada, nada. me olha. puxa minha nuca, minha boca de encontro a sua. entendo cada palavra que seus lábios gesticulam, mas não concatenam. imediatamente a caixa-d’água esborra. corro descalça, desligo a bomba. me encosto na entrada. cruzo os braços escondendo o agudo do peito. — lhe iniciaram, não foi? pergunto bobamente. ele tem o riso arguto de quem já viu muito sangue e cospe de lado. seu asco é tão patente, que me pergunto quem o imbuiu de tal missão, certamente um profissional já teria me matado, estará sendo treinado? enquanto penso ele fala, parece glossolalia, fala pra encher o quarto, encher as madrugadas, as paredes, as pias. ouço com atenção, tantas palavras vazias, recolho trechos, algumas profecias. suspiro. ele tem saudade de um homem, é isso? penso comigo. irmão morto. assassinado. crianças, ganâncias, ciúmes? um irmão doce, um bezerrinho? gêmeo? em transe viro os olhos na sua fumaça. sento no chão suando frio e ele fica em pé na cama, conclama, brada, rasga meu lençol, me xinga: puta, puta, morto, morto, morto eu o matei pra que eu ficasse vivo. eu choro descontrolada, balbucio: meu menino, meu menino. nessas sílabas ele avança, tornaram seus olhos de vingança. rasga meu peito qual sua cicatriz. reproduz em exata semelhança.