Deborah e o Campo do Fantasma

Dona Deborah 75 anos foi detida hoje no Campo do Fantasma, com uma faca ensanguentada. A senhora tinha um olhar vago e balbuciava coisas desconexas. Locais a viam constantemente nos arredores e dizem que sempre foi muito tranquila. As autoridades recolheram a arma que segue para análise. Nenhum corpo foi encontrado. Segue a transcrição do que foi inteligível depois do calmante:

havia o pavor quando era criança. tinha medo da sombra que batia nos fundos da casa. também, naquela época de bombardeios, tudo era ameaça… nem os adultos se arriscavam por aqui..

…mesmo no luto da guerra, brincava muito… tanta risada e arranhão… um corte sério na queda daquela pilastra quase decepa meu braço esquerdo, olha a cicatriz… mas me liguei aos escombros, sabe? estar aqui era a hora mais amena daqueles dias, era jovem e sonhava, meus olhos brilhavam hahah acreditava em tudo que me diziam…

…cresci eu e essas plantas. vi todas crescerem. só um salgueiro ficou vivo depois da guerra. gosto de estar aqui. olha, hoje as folhas estão com formato de labaredas, esse acúmulo das folhas secas…ainda é minha parcela preferida…aqui meus olhos descansam, passeiam pelas demolições, pelos raios das lagartas de fogo acolhidas, vejo graça até nos escorpiões! me pus deste lado do muro sempre de pés descalços, e assim continuo, queria muito que as autoridades permitissem que fôssemos enterrados nesses campos. é esse meu quintal, é onde quero ser enterrada. junto daquele salgueiro centenário, sobrevivente de todo aquele inferno…

suspiro profundo- ando esgotada, minha filha, seria bom ir embora no explodir do canto de uma cigarra. já que há tanta inutilidade na vida mesmo… tanta vida já vi indo embora. as pessoas hoje tão mimadas, tantos apelos infundados, quem tem quem lhe chore, morre todo dia. tanta irresponsabilidade nas pessoas que vivem pros seus ofícios. cada um que retire de fontes diferentes seus sustentos. mas nivelam todos num mesmo vazio, é… nunca será suficiente…

olhando ao redor- assim mesmo não tenho vontade de mudar nada por aqui, sabe? só sei que estou sempre aqui, até quando for preciso. esse campo, é meu terreno, onde cresci, sabia? acho que minha última oração foi poder voltar sempre aqui…minhas orações…. nunca houve uma isenta de mim. mesmo movida por ciúmes, vinganças, decepções, fugas, eram orações cheias. uma fé medrosa, mas também com a lavagem, né? o temor do senhor é o princípio da sabedoria hahahah acho que esperava resposta, mas pelo menos me fazia orar….sinto falta da fé que eu tinha… deixei de orar, já não brado aos céus um pedido, mal me peço alguma coisa…. prefiro fazer uma sopa, acolher um mendigo….deixa o dia, deixa a chuva. nunca tive nada muito importante pra dizer, mesmo… queria ir embora logo, pegar uma pena de morte e que deus, se quiser, me acuda.

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