A transformação que um ciclone, uma decisão e uma ligação podem fazer na vida de alguém


Há seis meses liguei para o meu pai e disse:

“Oi pai, to ligando só para avisar que não vou voltar com o ônibus, vou ficar mais um pouco no Rio, na casa da Nadine.”

Fazia pouco que tinha conhecido a tal cidade maravilhosa, após 36 horas de ônibus em excursão para a Bienal da UNE. Naquela semana havia participado das atividades da Bienal, assistido “um baita ” show da Pitty na Lapa, andado de ônibus para ir “descobrir” as praias da zona sul, circulado de metrô, almoçado no restaurante popular que custa 1 real e se almoça junto a estudantes, trabalhadores, moradores de rua… lá no entorno da Central do Brasil, no início da favela da Providência.

Naquela semana vivenciei muita coisa, aprendi muito também. Vi o Rio com um olhar mais sociológico do que turístico. Estava lá com pouca grana, dos pontos turísticos que fui, nenhum havia necessidade de pagar. Mas acima de tudo, estava lá querendo ver e escrever sobre o outro lado do Rio que a mídia não mostra.

Faltando dois dias para terminar as atividades da Bienal e o ônibus voltar ao RS, fui com a minha amiga Nadine, gaúcha de nascença e carioca de moradia e coração, conhecer a famosa Santa Teresa, o tão falado Bar do Gomes, a sua casa e seus amigos.

Na noite seguinte, o prefeito Eduardo Paes anunciou a chegada de um ciclone na cidade do Rio de Janeiro. Deixamos de ir na escola de samba, de fazer o que faríamos para “procurar abrigo”. Rapidamente desmontei meu acampamento, peguei o metrô, um ônibus e fui subir Santa Teresa para “abrigar-me” na Nadine. O tão falado ciclone não veio (virou piada na internet e na cidade no dia seguinte). Na falta do ciclone, saímos de casa para ir no Bar do Gomes, e depois no Simples Mente. Nessa noite, histórica para o Rio de Janeiro, conheci pessoas que hoje se tornaram grandes amigos, que vieram a me apresentar outros amigos que se tornaram amigos também. E foi lá, no Gomes, que os a mim apresentados como melhores amigos da Nadine, Fábio e Tonho, mal me conhecendo disseram (quando a Nadine me convidou para ficar mais um pouco no Rio):

“Que voltar o que, tua primeira vez no Rio, fica aí, depois a gente dá um jeito de você ir embora, fica que vai valer a pena (foi algo mais ou menos assim).”

No Simples Mente, mais gente me disse o mesmo. Então resolvi: Vou ficar! Depois eu dou um jeito.

Na tarde seguinte, a tal ligação acontece. Pai avisado. Fiquei no Rio. Se me dissessem, não poderia imaginar que nos primeiros dias no Rio já estaria encantada, apaixonada por ele e querendo ficar mais. Foi o melhor pré-carnaval e carnaval da minha vida. Depois de lá, voltei algumas vezes para o Rio e sei que voltarei muitas mais.

A pessoa que eu era antes de escolher ficar no Rio de Janeiro não é a mesma que voltou de lá. Voltei alguém mais madura, mais cabeça aberta. Trouxe na bagagem muitas histórias, momentos, vivências, experiências. Passei a ver a vida, o mundo, de um jeito diferente. O Rio é miscigenação, é diversidade, é a expressão viva da cultura, é samba, é natureza, é andar de chinelo até no trabalho, é simplicidade, generosidade. O povo carioca é um povo simpático e acolhedor, e que me desculpem os gaúchos que se dizem hospitaleiros, não que não sejam, mas os cariocas são muito mais.

Então o Rio é perfeito? Não, o Rio não é perfeito. É cheio de problemas, com uma policia extremamente corrupta, um índice absurdo de violência, obras intermináveis e muitas questões mais as quais sou extremamente crítica. Mas, acima disso, o Rio é mais qualidade que defeitos, por isso, tudo que lhe falarem de bom sobre ele, pode acreditar que é verdadeiro.

De volta ao RS, estava convicta e continuo a reafirmar:

Todas as pessoas merecem ir ao Rio de Janeiro ao menos uma vez em suas vidas.

O meu recado aos amigos cariocas de nascença ou de coração, é de que já estou com saudades e que a convivência com vocês me ensina, me faz crescer, me faz ser alguém cada vez melhor! Apesar de não ter data para voltar novamente, tenham certeza que ainda faremos muitas carioquices juntos e muitos textos sairão disso tudo.