Fui traída

Quando fui citada como exemplo de amiga desapegada. Quando preguei a sororidade. Quando aconselhei: “não pense em desistir dos seus sonhos por causa de um amor”. Ele me traía.
Saía às escondidas nas madrugadas e me deixava com medo de ficar sozinha no mundo. Chegou ao ponto de me convencer, com o argumento da partilha, que era possível se satisfazer com migalhas. E eu tentava, transformava cada farelo em uma refeição e as memorizava como banquetes saudáveis e saborosos. O Amor Próprio, ele me traiu.
Já se deram muito bem o Próprio e seu irmão, o Verdadeiro, carinhosamente apelidado de Amor da Minha Vida.
O Verdadeiro até já disse uma vez que ele e a Dona Felicidade não podem conviver bem. Para um chegar o outro teria que sair. Mas no fundo ele se lembra que já teve seus momentos de glória com a Feli.
Fui traída quando o Próprio saiu à francesa. Talvez ele tivesse razão em estar chateado com o meu deslumbramento com o Amor da Minha Vida. Mas sem o Próprio o Verdadeiro também não segurou a barra, achou melhor partir para encontrar a Felicidade.
Esses dias o Próprio bateu na porta de casa. Tinha uma trouxa mirrada de roupas nas mãos e olhos melancólicos, de quem quer tentar de novo — com calma e devagar.