Sete respostas para cantadas de rua e a reação dos caras*
Eu não consigo me lembrar se foi com 15 anos, ou menos, quando não pela primeira vez um sujeito de dentro da sua lata automotiva me olhou asquerosamente com cara de sexo. Dessa vez, sim, pela primeira vez, eu reagi sem pensar. Como se estivesse respondendo a uma provocação do meu irmão mais novo, soltei a minha mais desprezível e espontânea cara de nojo.
Bastou uma esquina para que o sujeito parasse o carro e com voz de pai bravo falasse algo do tipo: “Tô te elogiando e é assim que você trata as pessoas?”. Descarga pesada de adrenalina. Tela azul nas memórias do resto desse dia ou na minha reação. Não me lembro como reagi ao ~sermão~, nem como ultrapassei o veículo parado.
A temporada seguinte de cabeça baixa aos comentários desrespeitosos na rua bastou para que a cada cantada eu testasse uma resposta e elaborasse reações. Passou a ser questão de honra, terapia, vício, não sei muito bem — a adrenalina é das boas.
Eu sei muito bem, também, que reagir às cantadas de ruas é uma equação de segundo grau. Posso me dar mal demais numa dessas. Acontece é que eu cheguei em um nível com essa situação que se um dia me machucarem, eu vou mostrar isso para o (meu) mundo: “OLHA SÓ, MANO. TÁ CERTO ISSO?”
Minha única regra básica antes de responder um marmanjo na rua é ver se eu não estou em um lugar onde ele possa reagir fisicamente sem que ninguém veja.
Listo agora minhas reações às cantadas e as tréplicas. Lembrando que nada aqui é regra, é verbo irregular e equação de segundo grau — existem variáveis:
1. Cabeça baixa ou ignorar
Com certeza foi a minha reação mais praticada até agora, até porque às vezes não temos força. Hoje, é a que estraga meu dia, me sinto um lixo quando alguém fala algo e não respondo. O fone de ouvido vez ou outra salva, não me sinto tão mal em não responder pois não entendo a asneira que o cara falou.
2. Mostrar o dedo
É a minha resposta mais mirim, já usei muito. Ainda escapa quando tomo umas. Os caras ou ficaram bem putos, ofendidinhos, mimimi, ou acham o máximo o fato de eu ter ficado “bravinha” — é por isso que não curto tanto essa, eles se sentem vitoriosos em alguns casos quando a pessoa mostra o dedo.
3. Shhhhhhhhiu
Tô no maior papo com a Natha e cara passa falando besteira, atrapalhando nossa conversa? Ela mandou um “shhiu” com fôlego que silenciou o otário e não perdemos o assunto do bate papo.
Não usei mais. Falar Shiu, pra mim, é que nem falar meu nome no meio da balada. Exige fôlego. Mas dessa vez achei bem polido e classudo, funcionou.
4. Tá perdido?
Também com a Natha. Estávamos embaladas em algum assunto quando um carro parou, na hora percebi que eram elogios. A Nathi não, e com toda a sua boa vontade foi até a janela do carro e perguntou: “Vocês estão perdidos? Precisam de informação?”. Os caras arregalaram os olhos e não sabiam o que responder. Eu não contive a gargalhada e chamei ela para que continuássemos nosso caminho.
Foi uma das respostas sem pensar mais bem sucedidas, até agora.
5. Bom dia, boa tarde, boa noite!
Essa eu uso bastante. Quando eu não quero estragar meu dia e um sujeito tenta, primeiro eu me viro, olho no fundo daquele olhinho covarde e pergunto em alto e bom tom para que todos que estejam por perto escutem: “Falou comigo? O que foi?”. A resposta é sempre negativa ou mal-entendida, com um olhar surpreso. Depois do vexame desejo bom dia, em tom bem irônico.
6. Você não tem respeito?
Eu voltava da academia, em trajes esportivos, quando um segurança na esquina da rua da minha casa me chamou de delícia. Nem pensei e já virei perguntando se ele não tinha respeito. Ele se assustou com a reação, tentou me ofender me chamando de sapatão (RISOS) e outras coisas.
O sangue já estava tão quente que eu apelei para o clássico “Vai tomar no c#”. Voltei tremendo em passos rápidos os poucos metros que faltavam até a minha casa. Torci para que ele não tivesse visto onde eu entrei.
Resolvi não mudar meu caminho rotineiro. Mas contei o causo para algumas amigas, vai que acontece alguma coisa. A partir de então, passei a dar boa noite cordialmente ao agressor todas as vezes que o vi em seu ambiente de trabalho.
7. Você não tem família, mãe, irmã?
Em minha opinião, essa é uma das minhas respostas elaboradas que mais deveriam atingir os agressores. Mas, ainda não consegui utilizar da maneira que gostaria. Essa perguntinha acaba sempre vindo entre palavrões nervosos e dedos, aí acho que acaba perdendo a possível força.
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O próximo plano é virar para o próximo sujeitinho que me destratar na rua, com a câmera do cel ligado e falar: “Repete, otário, canta mais que tá pouco” (aí ele pega meu celular e sai correndo, rsrs).
Sei lá, quero que esse post fique muito mais como desabafo. Isso não é um tutorial. Essas reações surpresas foram a maneira que eu encontrei de me sentir menos lixo quando um homem mexe comigo na rua. Penso que se ele for surpreendido, e talvez constrangido, com a minha reação, quem sabe na próxima vez que ele for humilhar uma mulher na rua ele se lembre o quanto já foi vergonhoso.
Se você deseja entrar nessa empreitada de responder cantadas de rua, desejo sorte e coragem. Mas não posso prometer que vai continuar o seu caminho em paz. Outra maneira mais segura de lutar pela causa e tentar garantir o seu direito de andar pelas ruas sem nóia é o admiradíssimo projeto #ChegaDeFiufiu.
*Texto originalmente publicado em Latorre da Julia