F.A

Julia Marchi
Nov 7 · 2 min read

É preciso dizer palavras, enquanto houver, é preciso dizê-las”

“Vai ser eu, vai ser o silêncio, ali onde estou, não sei, não saberei nunca, no silêncio não se sabe”

Samuel Beckett

Não irei dizer meu nome, mas acredito no poder das palavras gravadas em muros ou papeis. Você se torna eternamente vivo pelas palavras que registra. Assim como o esquecimento do rosto das pessoas queridas que já se foram, tenho medo de esquecer o meu próprio.

E o seu. Deixando de lado todo o sentimento repentino que me vi sentindo por você. Me sinto culpada.
Cravada com unhas de serpente, “a culpa nasce com o útero”.
Isso faz de mim uma fugitiva infindável para tudo e todos.
Mas eu costumo me intrometer em espaços e escolher a dedo os meus próximos arrependimentos, construindo destroços meus pra que essa terra se lembre que já pisei aqui. Por isso te escrevo essa carta, acho que vale a pena te ter mesmo como arrependimento.

Quero te contar uma história sobre o movimento, de preferência sem fazer nenhum.

Era uma vez um lugar (que é diferente de espaço) em que as pessoas viviam em coletivo, eram muitas pessoas de uma só vez, rodeadas de outras muitas pessoas de uma vez.

Sozinhas.

Não havia mais civilização. Lá fora não passava de uma simples zona de tráfego, mirando o fim do itinerário.

Após 1990, o governo decidiu soltar poetas pra que vivessem misturados à massa. Entretanto, a poesia que mantinham guardada em seus corpos foi substituída por uma angústia causada pela busca incessante de explicações para o que sentiam.

Essa angústia os fazia duvidar da existência do material.

A leitura das mãos revelou:
mulher apaixonada
Passou maquiagem nas palmas
A leitura de cartas a revelou:
por uma figura de outro mundo
Um isqueiro resolveu o problema

Eu li que todo livro de poema se assemelha ao projeto de uma cidade. A poesia que ainda não escrevi me trouxe até a sua rua.
Em você encontrei o interlúdio de outro caos.