Precisamos falar sobre compulsão alimentar

“Eu sempre gostei de comer, fui uma criança gordinha!” — essa é a desculpa do gordo pelo seu excesso de peso. E é a mesma desculpa que eu contei para mim mesma durante 25 anos.

Inventar uma desculpa generalizada, simplesmente pra não ter que pensar nos motivos e nas causas de um problema, é óbvio, cômodo e confortável.

De fato, eu sempre fui uma criança gorda. E sempre gostei de comer.

Mas a comida, além de nutrir meu corpo, sempre teve uma importância a mais na minha vida: ela sempre foi minha companhia. Tipo um cachorro que não late e não morde, mas está do seu lado assistindo televisão.

Não venho de família rica e, por isso, cresci vendo minha mãe (professora de escola pública) trabalhando três turnos seguidos para dar conta da casa e meu pai (motorista) entregando jornal de madrugada. Apesar de ter dois irmãos, sou fruto do segundo casamento da minha mãe e, quando nasci, meus irmãos já eram crescidos e já tinham seguido seu rumo em outra cidade. Fui criada como filha única.

E, por ser filha única, cresci sozinha. Rodeada de bonecas e amigos imaginários. Meus pais trabalhavam muito e raramente tinham tempo para brincar comigo.

Para demonstrar seu carinho e preocupação comigo e com o meu bem-estar, minha mãe recompensava sua ausência com muita comida e geladeira liberada o dia inteiro. Isso significava: salgadinho, chocolate, refrigerante e todo tipo de comida infantil cheia de corante e com gostinho de tutti-frutti. E eu, pra esquecer sua ausência, comia tudo que eu tinha direito, afinal, aquela comida era uma maneira de ter minha mãe por perto.

Hoje entendo que essa foi a maneira que ela aprendeu à demonstrar carinho e cuidados, mesmo trabalhando todo dia. E não a culpo por isso. Ela não teve escolha ou não teve tempo de fazer diferente.

Mas esse comportamento, que aprendi na infância, foi o que moldou minha relação com a comida. E me transformou numa pessoa compulsiva.

A comida tem uma relação e uma intenção social. Ela é celebrada e servida para amigos queridos. Quando alguém faz aniversário, celebramos mais um ano de vida aplaudindo um bolo (já parou pra pensar o quão bizarro é isso?). Quando estamos tristes, comemos. Quando estamos felizes, comemos. A comida é o nosso combustível.

E como faz pra ajustar a bomba do combustível se, quanto mais você tem, mais você quer?

Sempre tive uma relação conturbada com a comida, mas o meu problema específico com a compulsão alimentar começou em março de 2014.

No final do ano de 2013, minha vida virou de cabeça para baixo e eu, que sempre tive uma visão endeusada dos meus pais, percebi que eles eram tão humanos e tão errados como eu. E me vi sozinha, mais uma vez, procurando casa pra alugar. Fui jogada no precipício pela vida, que cansou de me dar sinais de que estava mais do que na hora de buscar outros rumos. A relação estava enfraquecida, por um fio. Era hora de tentar salvar o pouco que havia sobrado.

Saí com uma mala de roupas, com o coração apertadinho e medo. Muito medo.

Consegui alugar um apartamento antigo, pequeno e com uma estrutura medonha, praticamente abandonado. Mas aquele seria o meu começo. E eu estava, apesar de assustada, feliz por ter tomado uma das decisões mais importantes da minha vida.

Eu estava no mar, à deriva, segurando num pedaço de tronco e rezando para que a correnteza me levasse para a areia. Mas não contava com as ondas.

As ondas, no meu caso, foram um misto de culpa, raiva, solidão, tristeza, incertezas e perguntas, que vieram me afogar quando eu parecia estar bem. Ter saído de casa sem resolver efetivamente os problemas que me fizeram tomar essa decisão foi um dos piores erros que eu cometi. E tentar “engolir” os problemas, meus amigos, não funciona.

O único jeito que eu havia aprendido de silenciar os problemas que cismavam em me torturar e me culpar era comendo. Comendo muito, compulsivamente, até passar mal, até parar de pensar.

A compulsão alimentar funciona como um cigarro para o fumante, a cerveja para o alcoólatra, o sexo para o ninfomaníaco. A comida era minha resposta. Minha zona de conforto. Minha companhia. Meu silêncio. Minha válvula de escape.

Quando numa crise, a cabeça entra numa espécie de êxtase. Você perde o controle dos pensamentos, das respostas e das vontades. Você perde o paladar, o olfato e a audição. A única coisa que você pensa, quer e vê é comida. A maior quantidade que você puder comer da maneira mais rápida e menos satisfatória possível.

Existem três tipos de compulsão alimentar: por sedação(quando você não quer pensar em alguma coisa), por punição(quando você se sente culpado por algum problema e quer se machucar) ou a por recompensa (quando você fez alguma coisa legal e acha que “merece” comer tal coisa).

No final de uma crise compulsiva, você tem vontade de enfiar sua cabeça num buraco. Tem vontade de chorar, de se odiar. Você se sente a pior pessoa do mundo. A mais nojenta. A mais escrota. Não se acha digna de amor e nem de carinho.

Quando você passa por uma crise de caráter punitivo, esses sentimentos ruins acompanham cada mordida do que quer que você esteja enfiando pra dentro. Até que você passe mal e sinta seu estômago explodindo. É uma sensação estranha. Uma das piores que eu já senti.

A minha pior crise foi quando fiz um bolo de milho para receber visitas na minha casa nova e devorei o bolo, ainda quente, em 5 minutos. Não foi um pedaço. Nem metade. Foi um bolo inteiro. E, junto, tomei um litro de Coca-Cola. Claro que passei mal, me senti culpada, me senti um lixo e… vomitei tudo. Forcei o vômito. Foi a primeira e única vez que fiz isso, mas a partir desse dia senti que o que eu tinha era mais do que “gula”, era mais do que “coisa de gordo”. Eu tinha um problema e precisava tratá-lo.

Foi quando encontrei uma nutricionista especializada em transtornos alimentares. Claro que eu tive medo de expor esse lado auto-destruidor da minha personalidade tão alegre e expansiva (esse relato vai assustar muita gente que me conhece), mas segui em frente. Entender que sim, eu estava doente e precisava curar essa doença, foi algo fundamental para que todo o processo desse certo. É preciso ter consciência do problema.

Hoje eu sei que compulsão alimentar é uma doença. E que muita gente confunde compulsão com gula, olho grande, “cabeça de gordo” ou gordice. Não é. É preciso tratar a compulsão como uma doença psicológica e entender os motivos pelos quais ela se apresenta. Nem todo gordo é compulsivo. Nem todo magro é saudável. São paradoxos.

Gostaria de terminar esse texto com um final feliz e com uma foto de antes e depois, como um milagre, tipo garota propaganda da Herbalife.

Mas eu ainda tenho crises de compulsão; a diferença é que agora elas são muito mais espaçadas, cada vez mais conscientes e eu sempre estou em busca de alternativas mais saudáveis para substituí-las. Escrever, no meu caso, é uma dessas alternativas.

Se você leu o texto até aqui e se identificou com o meu relato, eis algumas dicas:

  • aconteceu? PERDOE-SE! tente entender o motivo do descontrole e acolha o sentimento, sem julgamentos.
  • procure ajuda médica especializada; não, o nutricionista da moda não vai te ajudar. você precisa de uma pessoa ESPECIALIZADA no assunto, que entenda o seu caso e saiba identificar possíveis características compulsivas.
  • peça ajuda; você pode ser a pessoa mais forte do mundo, mas esse maremoto só vai passar quando você tiver outro marujo no seu barquinho, capitão!
  • tente identificar os alimentos, os momentos e as ocasiões onde você sente que “perde o controle”; numa festa? em casa sozinho á noite? depois de trabalhar muito?
  • se conheça!

Quer conversar mais? Me manda um e-mail: juliameirellesgarcia@gmail.com.

ATUALIZAÇÃO: no meu blog pessoal, iniciei hoje uma série de textos que falam sobre compulsão alimentar; se você se interessa pelo assunto, pode começar a jornada junto comigo, clicando aqui.