A experiência de uma vida

Ao contrário de Milão onde consigo lembrar de minha última noite em frente ao Duomo pensando em tudo de incrível que já tinha acontecido até ali, de Coimbra não me despedi. Apesar da última noite ter sido como a realização de um sonho, minha partida ocorreu como se fosse fazer uma simples viagem até algum lugar próximo e retornasse em breve. Com uma pequena mochila nas costas e ao lado de meu pai,fechei aquela porta que me abrigou menos vezes do que deveria, deixando dentro do quarto todos meus pertences que seriam mais tarde enviados para meu último destino. O fato de não ter tido uma despedida faz parecer com que aquela realidade ainda existe em algum lugar do tempo e espaço, que um breve retorno àquela região mágica seria capaz de recuperar toda a atmosfera existente e trazer de volta toda a alegria, tristeza ou qualquer outro sentimento que pude experimentar nessa pequena cidade. Sempre intensa.

Há aproximadamente dois anos eu retornei para o Brasil, mas faz apenas um ano e três meses que decidiu-se que Coimbra deveria sair da minha vida. No entanto, apesar dessa decisão prática e racional, minha memória insiste em trazer para o jogo diversas comparações e situações nos momentos mais diversos e inesperados do meu dia. Seja numa quarta-feira não mais ociosa e sim cheia de coisas para fazer, ou pelos deslocamentos cronometrados do dia que poucas vezes podem ser feitos a pé desfrutando minuto por minuto. Mas, um ponto importante é que sempre fui apaixonada pelo pôr do sol, e é incrível como São Paulo tem nos brindado com cada um mais incrível e deslumbrante que outro, cada dia uma nova surpresa, porém, jamais haverá de superar aquele sol que se escondia por entre as montanhas em Coimbra, seja enquanto tomava um café na Beira do Mondego, ou logo depois de acordar daquele sono preguiçoso que durou o dia inteiro.

Ali, na Avenida Dom Afonso Henriques, a qual descobri que era Henriques só no final, e que era por mim chamada tão carinhosamente de “Dom Henrique” vivi diversos dos melhores momentos da minha viagem. Num dos quarto, dentre tantos daqueles prédios cheio de quartos, construí um castelo em que eu era a heroína e onde não éramos obrigados a sermos felizes, mas onde simplesmente a felicidade decidiu-se por habitar de forma espontânea e linda. De danças entre aquelas paredes, passando por sonhos muito maiores do que o retorno ao Brasil, sonos de 15 horas, uma languidão eterna, experiências gastronômicas, tentativas de estudo, laranjas divididas, garrafas de vinho, gargalhadas, filmes online grátis e onde a maior dificuldade era ultrapassar a fronteira do lençol, a sensação de estar no lugar certo e na hora certa, depois de anos longe dando a cara a tapa e caminhando sem rumo, era o que predominava cada espaço e pensamento meu. Finalmente em casa.

Quando falo em pôr-do-sol, sei que todo dia tem um novo com seu encanto e com suas tonalidades, mas dificilmente algum será tão mais lindo como aquele que me acompanhava ao mercado comprar peixinho para o almoço, podendo trazer um M&M e um Kinder Bueno de sobremesa, ou voltando de um cafezinho na Vênus, ou, quando era necessário ser saudável, uma salada de frutas com Callipo. Apesar dessa foto estar incompleta em relação aos fatores que compõem a beleza existente nas minhas memórias de Coimbra, eu sei que estavam por ali no momento em que meu dedo encostou na tela do celular, e esse conhecimento basta para que a sensação de felicidade, acolhimento e calmaria existam em mim nesse momento.

Ah, Coimbra, falar de você é como transitar entre frieza e calor ao mesmo tempo; é ter o coração apertado e um sorriso no canto dos lábios; é ter uma saudade sem fim e sem cura.