A QUINTA VEZ EM QUE FIZ TRINTA ANOS

A primeira vez que fiz trinta anos foi indolor: não tive crise. Tudo continuou na perfeita ordem. Cabeça, ombro, joelho e pé. Trabalho, filho, marido, casa, supermercado. Tudo em ordem.

A segunda vez que fiz trinta anos fez a garganta arranhar. Pigarro? Faringite? Não sabia. Inquietei. Alguma coisa estava fora da ordem.

Na terceira vez que fiz trinta anos, questionei o que era a ordem.

Na quarta vez que fiz trinta anos, virei do avesso. Amaldiçoei a profissão e o amor. Resetei a vida. Me vi sozinha. Me arrependi de escolhas, de fases, de abdicações. Me olhei no espelho e não me reconheci. Mergulhei em mim mesma. Me afoguei. Doeram os pulmões, a cabeça e o coração. Chorei, escrevi e enviei antes de reler. Dormi. Usei batom vermelho.

A quinta vez que fiz trinta anos foi chuva mansa. Onda boa. A barriga não estava lá grande coisa, mas a comida tinha sabor melhor. O cabelo ficou mais natural. Os olhos, atrás de lentes, ficaram mais brilhantes. Parei de viver para fora. Comecei a conviver com o de dentro. Exorcizei monstros. Passei a ver beleza em desimportâncias. Comprei menos, viajei mais. Me tornei uma mãe menos tensa. Deixei de ver TV. Tive urgência em realizar: planos, sonhos, necessidades. Falei mais sobre sexo. Fiz mais sexo. Paguei as dívidas: com os outros, comigo mesma e com o banco. Me descobri feminista. Me redescobri professora. Me reinventei mulher.

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