A SEGUNDA VEZ EM QUE TE CONHECI

Dizem por aí que conhecemos algo ou alguém uma única vez. Ninguém conhece um país pela segunda vez ou ainda uma pessoa pela terceira ou quarta, certo? Nem sempre.

Estar em um relacionamento com pretensão de alguma verdade é conhecer e reconhecer alguém o tempo inteiro, todos os dias. A ideia vendida em almanaques de que se encontra amor pronto, um encaixe perfeito é tão fake quanto a famigerada metáfora das metades da laranja. Estar com alguém cuja sintonia se dê até nas mínimas ranhuras da pele, exige tempo, disposição e, não se pode negar, um quê de sorte.

Sentir que há algo errado pelo tom de voz do outro, pela falta de vontade de usar batom naquele dia, pela respiração pesada ou até pela forma como passa os canais sem parar na TV é dom de gente observadora, detalhista e apaixonada por gente. Conhecer as nuances do outro é, antes de tudo, mostrar disponibilidade em estabelecer vínculo.

Reconhecer sinais, caras, bocas, respiradas, olhares e trejeitos faz da gente parceiros, não só da festa, da viagem, da mesa de boteco, mas de vida. Saber que se tem alguém que nos conhece nas camadas cinzentas causa uma das sensações mais deliciosas da vida: a de poder ser quem se é. De verdade. Na terça gelada. Na sexta sem programa. No domingo de sofá.

Esse conforto, por assim dizer, não pode ser confundido com falta de novidade ou desleixo, pelo contrário: é nele que mora a beleza das risadas e das conversas que se alongam madrugada a dentro; é ele que abriga as palavras sem som e os silêncios acolhedores; é ele o dono da paz e “da sorte de um amor tranquilo”.