AS RAZÕES DO AMOR

Dia desses me peguei pensando nos motivos pelos quais nos apaixonamos por determinada pessoa e não por outra; nos caminhos que nos conduzem a uma história de amor e, especialmente, nas razões incertas que constroem as coisas do coração. Bom seria se pudéssemos selecionar os nossos pares de acordo com critérios objetivos e retos: só nos relacionaríamos com pessoas do mesmo nível de escolaridade, provavelmente de determinado tipo físico, de específico gosto musical. Todos inteligentes, bem-humorados, carinhosos, dedicados, pacientes e portadores de uma lista generosa de adjetivos admiráveis. Uma receita infalível. Será?

No entanto, parafraseando o poeta, as razões do amor são desconhecidas da própria razão. A verdade é que não nos apaixonamos por alguém devido ao seu gosto pelo Renascimento, pelas viagens que fez, línguas que fala, família incrível. Tampouco pelos cabelos sedosos, sorriso charmoso, pelas piadas bem-feitas, sacadas sensacionais nem pelos planos para o futuro. O que de fato faz então com que nos lancemos em à essa força intensa que é a paixão? Por que alguém (ou mais de um!) consegue despertar esse sentimento?

É provável que não haja resposta para essas questões. Ainda assim, sempre acreditei que nos apaixonamos pelo conjunto da obra, por assim dizer. Acredito na beleza e na força nos detalhes. Acho mesmo é que o amor se esconde neles. Naquilo que é espontâneo, genuíno, rasgado. Na ausência de pudor e de meias palavras. Aliás, no amor não há metades. Tudo é por inteiro. Ele é feito de entrega. Talvez a gente se apaixone pela disponibilidade do outro em nos amar. E então, aceitamos o amor que julgamos merecer.

Sendo assim, nos apaixonamos pelo café da manhã na cama vez ou outra, pelo remédio comprado na madrugada, pelo chocolate preferido que veio na última passada pelo mercado. A gente se encanta mesmo é com mensagem boba no meio do dia, com a companhia sincera em almoços familiares de domingo, com a força no mês em que as contas estão apertadas. Com a capacidade de ouvir de verdade, não apenas esperar pela vez de falar. Torna-se irresistível aquele capaz de se doar, de cuidar, de criar em nós a vontade de voltar para casa. Seja em dias ruins, para chorar e esbravejar contra o mundo, seja em dias bons, para rir junto das besteiras da vida.

É bem verdade que as razões do coração são desconhecidas. De todo modo, que possamos ter olhos e corações bem abertos para reconhecer amor de verdade. Amor saudável, recíproco e acolhedor. E, por fim, em época de tanto desamor, desafeto, impaciência e egoísmo, que possamos ter ouvidos para as delicadezas e levezas que ainda há gente com habilidade suficiente para oferecer. Amemos!