E QUANDO EU NÃO FOR MAIS NOVIDADE?

Encontrar um amor. Viver uma grande paixão. Namorar um monte. Todo mundo quer? Possivelmente. A conquista, a novidade, a sensação de tocar aos poucos um universo desconhecido e de tornar-se íntimo são incríveis. A confiança que se dá e se ganha, a comunicação pelo olhar, a afinidade até nas pequenas ranhuras da pele. Tudo parece indicar o “e foram felizes para sempre”. A questão é que os contos de fada acabam com a famigerada frase, embora os relacionamentos “de verdadinha” se deparem com as doçuras e amarguras da vida a dois. E relacionamentos longos, combinemos, exigem uma dose a mais de disposição, boa vontade e jogo de cintura.
João Guimarães Rosa, famoso, entre outras razões pela literatura de caráter filosófico e reflexivo, afirmou que: “No mais, mesmo, da mesmice, sempre vem a novidade.” , Rosa atribui aqui um sentido otimista, por assim dizer, aos conceitos de “mesmo” e “mesmice”. Será, de fato, possível que haja o novo naquilo que é igual? Em tempos de relações descartáveis, quem quer “mais do mesmo”?
A mesmice é a qualidade do que permanece inalterado; é sinônimo de igualdade, uniformidade, falta de variedade; bem como, de monotonia e de marasmo. Por outro lado, mesmice também é sinônimo de identidade e, nesse sentido, o possível incômodo causado por aquele que não varia, é um desconforto em relação à identidade do mesmo. Vivemos em tempos em que a agilidade e a mudança se fazem urgentes: ninguém tem tempo a perder, paciência para investir ou ainda disponibilidade para repensar relações. Quebrou? Jogue fora. Cansou? Troque. Deu trabalho? Desapegue.
O quanto estamos dispostos a criar laços profundos? Em algum momento, deixamos de ser novidade para alguém. A fase da conquista passa. E talvez seja exatamente aí que os laços se revelam: estreitam-se ou afrouxam-se. É justamente da uniformidade que nasce a beleza daquilo que fica. Estar sempre impecável não é mais necessário, a lingerie pode ser meia-boca, as unhas, lascadas; a gente solta um palavrão aqui, um xingamento ali. As olheiras teimosas prevalecem, falta assunto às vezes.
Acredito que encontrar amor seja isso mesmo. Ter alguém que permita que você seja mais ou menos em alguns momentos; que ria das suas piadas ruins; que encare almoços chatos de domingo; que solte um elogio genuíno depois de uma semana caótica. Estar com alguém que saiba silenciar diante de uma cara feia ou de uma palavra mal dita; que dê alguma leveza para um dia de gripe; que tope ficar jogado no sofá num sábado à noite. No mais, penso que é preciso saber que a novidade é efêmera; passamos muito mais tempo sendo iguais, do que diversos e, ainda assim, mergulhar profundamente no universo único, que cada um é, pode ser sensacional. Reconhecer no outro, a mesmice que escolhemos, pode ser o início de uma saga para a vida. Em tempo: que tenhamos a boa sorte de desejar o mesmo!