ESSA TAL FELICIDADE…

Tenho boa memória. Seletiva, como a de quase todos e, especialmente sensorial, como a de muitos dos amantes das letras. Lembro do gosto da calda de chocolate que minha mãe jogava em cima da pipoca e da meleca deliciosa e disputada que ela criava nos intervalos das brincadeiras vespertinas no quintal de casa. Sinto vividamente o perfume que ganhei no meu aniversário de quinze anos na Disney. A textura do vestido da formatura. A letra da música que recebi logo depois dos primeiros encontros. Da sensação que me fez transbordar ao ver o rosto daquele bebê pela primeira vez.
Tanto se fala, se escreve, se encena, se canta e se pergunta sobre felicidade. Eu certamente sou da turma que adora papear sobre ela. Talvez falar sobre seja uma maneira de buscá-la. É possível que discuti-la aponte caminho para agarrá-la! De todo modo, penso que a memória ajude a construir uma ideia de felicidade; as lembranças que construímos e que constroem a gente, de algum jeito, sirvam de norte e modelo do que é ser feliz. Explico: quem já foi feliz, por um momento que seja, sabe. A gente lembra da cor, do cheiro, do som e, especialmente, da sensação de ser inundado por felicidade. Ela é fugaz, volátil, bem sabemos, mas ainda assim, memorável.
E nada é mais pessoal, sazonal e único do que ideal de felicidade. O que era prioridade passa a ser insignificante em meses. Às vezes dá até saudade de quando a felicidade absoluta dependia de um presente, de uma festa, de um telefonema, de uma nota boa. O que parece é que o tempo vai passando e ser feliz vai exigindo um esforço danado. Os mais sábios e espiritualizados dizem que a felicidade vem de dentro; ela estaria mais ligada às lentes que usamos para ler o mundo do que a fatores externos. Assim sendo, qualquer um pode ser feliz, independente das circunstâncias em que se encontra. Será?
O fato é que há classificações, teorias e conjecturas infindas sobre ela. Afinal, quem não quer ser feliz? Há quem viva em busca da euforia, do frio na barriga e da incerteza. O poeta disse que “felicidade se dá é nas horinhas de descuido” e que ser infeliz seria só “uma questão de prefixo”. Outros apostam no desenvolvimento pessoal, na reforma íntima e na resignação. Eu acredito que a felicidade está onde o coração da gente encontra repouso.
E, por repouso, não quero dizer falta de novidade nem mesmice. Acredito que estar em paz possa ser a forma mais genuína de ser feliz. Em casa, com a família, no amor, no trabalho, com o dinheiro, com os amigos e sempre: um coração que respira tranquilo, que adormece e que desperta para a necessidade de viver pacificamente é, sem dúvida, feliz.
Cabe a nós buscarmos esse “lugar” de repouso. Sim. Porque ele não chega sem esforço, sem longa travessia, que se dá, prioritariamente, dentro da gente. Acho mesmo é que o caminho da jornada é muito mais para dentro do que para qualquer outro lugar. Procuremos!