INTIMIDADE

Cinco e quarenta e cinco da manhã de uma sexta que promete ser ensolarada. A primavera dá as caras. O despertador, o tom. Ela levanta sonada. Ele dorme de boca aberta. O ritmo da manhã é o de sempre: banho, comida pro cachorro, café com leite, bolsas e rua. No elevador, ele a lembra de que precisa comprar queijo e pão integral. Ela, pela oitava vez, repete que é preciso marcar horário com o dentista. O dia começa como de costume.

À noite encontram-se novamente. Ela, exausta e com olheiras marcadas. Ele, faminto e igualmente cansado. Ele pergunta sobre a alergia nas mãos dela e questiona a necessidade de se usar esmaltes. Ela confere se ele ligou pra mãe e confirma o churrasco do final de semana. Na sexta vão ficar em casa. Ela quer banho, série e cama. Ele queria que saíssem com os amigos, mas sabe que ela não é boa pra programas às sextas. Ficar em casa é bom também. Ele percebe que ela o observa entretido com o celular e resolve deixá-lo sobre a mesa de cabeceira. Ela se enrosca nele e, antes de adormecerem, ainda o lembra de que marcou horário para o exame na semana seguinte.

Provavelmente essa não é uma cena típica de comédia romântica ou ainda o ideal de paixão avassaladora digno de narrativas açucaradas. Mas a rotina descrita acima pode ser encarada como um retrato de relação íntima. Explico.

A verdade é que existe uma falsa ideia de intimidade que se esconde atrás de decotes, olhares que fuzilam e sexo equilibrista. A coisa vai além.

Porque intimidade não é só estar dentro dela, sexualmente. Mas ao lado, especialmente de mãos dadas e, quem sabe, de olhos fechados. Intimidade é antever reações, ler expressões, enxergá-las até nas mínimas ranhuras da pele. É conhecer os medos do outro e identificar o momento em que eles surgem, somente pela forma como ele respira diferente. É estar certo de que o dia não foi dos melhores, só pela maneira como ele bufou no caminho de volta pra casa. É notar a ansiedade ao observá-la andando pela casa ou mexendo no cabelo incontroladamente. É querer estar junto ainda que o outro não consiga ser espetacular naquele momento. É ter coragem para perguntar se ela está bem e paciência para ouvir a resposta. É saber a hora de permanecer em silêncio.

Intimidade exige tempo e envolvimento. Mais do que isso, demanda convívio, boa vontade e, principalmente, interesse naquilo que o outro é, para muito além da embalagem. É entender que o outro é fruto do entrecruzamento de muitas histórias e que, fatalmente, carrega a sua porção de cada uma delas. Ser íntimo é, definitivamente, nadar contra a maré. Talvez signifique até estar fora de moda. Nos tempos em que vivemos, é bem possível que o desejo de ser íntimo seja um ato revolucionário. Despir-se completamente e entregar-se ao outro para ser lido na íntegra, sem cortes ou edições não é para qualquer um, ainda que a sensação de estar livre de máscaras seja única.

Afinal, se o amor se esconde nos detalhes, a intimidade é construída por aqueles que sabem enxergá-los e valorizá-los. Para pensar: você é íntimo de quem?