“O QUE ELA QUER DA GENTE É CORAGEM”

Quando se é jovem, quase tudo passa pelo filtro da intensidade: os amores são para sempre, as inimizades também, somos militantes de múltiplas causas e seres que sofrem de injustiça crônica. As dúvidas são sempre justificáveis e, acima de tudo, as certezas, numerosas. Somos criaturas indestrutíveis e, supostamente, cheias de coragem. Ouvi, faz algum tempo, que o jovem é um ser grávido de si mesmo e, nesse sentido, todas essas questões tornam-se perfeitamente aceitáveis e justas, já que fazem parte do nosso amadurecer e do processo de autoconhecimento. Assim, é lícito que escorreguemos aqui e ali, que sejamos radicais, ou ainda, que mudemos de opinião, afetos e posturas a cada meia hora.
Mas o fato é que a gente cresce e a brincadeira fica séria. A vida trata de nos deixar de calças nas mãos. Pouco importa o quanto botemos fé na nossa maturidade, nos planos que fazemos e nos passos que julgamos serem firmes; o caminho vai te surpreender, vai te virar do avesso, vai te fazer quebrar promessas e juramentos e vai, enfim, derrubar muitas, mas muitas mesmo, das certezas certas e certeiras que sempre carregamos à tiracolo. O correr do tempo vai trazendo, inevitavelmente, situações com quais não sabemos lidar, não imaginamos ter de lidar algum dia. Com um olhar mais lírico, é possível dizer que talvez seja aí que a beleza da vida se esconda: não estamos prontos. Ninguém está. Não há bula nem manual de instrução. A travessia se faz sempre sozinho.
Todo mundo tem uma história pra contar. Todos os dias alguém descobre uma doença grave, é traído, perde o emprego, um grande amor. Certamente conhecemos alguém cuja vida deu um nó apertado, difícil de ser desatado; alguém que foi injustiçado, enganado. Quem tem olhos para ver, sabe que reviravoltas e curvas acentuadas acontecem a todo o momento. E, mais importante do que as situações extremas e dificultosas, é a forma de encará-las ou, de fato, o que conseguimos fazer daquilo que foi feito de nós. Tentando, talvez com pouco êxito, fugir da autoajuda, penso que situações-limite ensinam, dor ensina, sofrimento ensina; mas nada, absolutamente nada, ensina mais do que amor. Amor de verdade cura, acolhe, conforta e gera ainda mais amor. Pela vida, pelos outros, por nós mesmos.
Parafraseando meu amado João Guimarães Rosa, a vida é esse esquenta e esfria, esse aperta e afrouxa mesmo e o que ela quer da gente é coragem. Coragem pra levantar, pra falar o que se pensa, pra defender o que acreditamos, pra mudar de opinião, pra chorar, pra pedir colo, pra dizer que não suporta mais. Coragem para lidar com as piores notícias, com dores desconhecidas, com as marcas que carregamos. E ser corajoso é lição que provavelmente não se ensina. Ela chega, na maioria das vezes, para quem não tem outra opção, além de criar coragem.