PORQUE ESSE SEU SORRISO É COVARDIA

Abro os olhos. São 5:40 da manhã de uma quarta-feira gelada. O toque do celular me desperta, fria e mecanicamente, para mais um dia burocrático de compromissos a serem cumpridos, contas a serem pagas, trânsito e horários. Por alguns segundos, penso estar sozinha. Bocejo e esfrego os olhos sonolentos, até que sou alcançada por algum rastro de consciência que me lembra a sua companhia. Ali, a poucos centímetros de mim, você ainda dorme, ignorando o som do despertador, a quarta-feira gelada e o meu olhar, agora atento a você.
Não sei bem como foi que isso aconteceu. Não sei explicar a forma pouco sorrateira como você entrou em tudo. Está em tudo. É parte de tudo. Como foi que a escova azul se apropriou da pia do banheiro? Como é que aquele xampu “for men” encontrou espaço no meu arsenal de produtos para o cabelo? De que jeito que o seu violão se acomodou na sala? Aposto que você também ignora essas respostas. O sono tranquilo, a cara de menino e os cabelos desalinhados não parecem se preocupar com explicações desse tipo.
Levanto da cama e vou pensando nas voltas que a vida dá. Nos encontros e desencontros que ela nos proporciona. Na nossa sorte. Na piada ruim que você fez ontem. No nosso papo durante o preparo do jantar. Na forma educada como você escuta MPB sem entender porque gosto daquilo. No orgulho que você tem dos meus textos meia- boca. No beijo estalado que recebo ao nos despedirmos antes das sete. Lembrei dos nossos cafés- da- manhã –melhores- do- mundo. Da nossa filosofia de alcova. Dos planos infalíveis. Das declarações bregas e dos silêncios que tantas vezes fazem trilha sonora pra nós.
Volto os olhos para a cama e o surpreendo acordado. Você me dá o seu sorriso exagerado, incompatível com o horário. Aquele que é a coisa mais bonita que há em você. Aquele em você mostra quase todos os dentes. Aquele que te faz fechar ainda mais os olhos, que já são tão apertados. Eu ofereço o meu de volta e como paga.
Começo o meu dia desejando que sigamos assim: leves, apaixonados e velhos colegas de infância. Que a sua maior covardia seja esse sorriso bobo e que a minha maior fraqueza seja precisar do seu beijo de boa noite pra dormir bem. Combinado?