QUERO ME CASAR

Dia desses, durante uma conversa na hora do almoço, ouvi assim meio de orelhada, uma frase que me deixou intrigada: “Eu não quero saber de me casar jamais! Prefiro gastar meu dinheiro com sapatos, ao invés de tupperware”. A fala despretensiosa veio acompanhada de risos e comentários sarcásticos sobre o famigerado enlace matrimonial, bem como de historinhas mal sucedidas e de desfechos traumáticos.
Em um mundo de amores inconsistentes e paixões voláteis, casar-se parece, no mínimo, fora de moda e antiquado. Já eu, acredito na ideia oposta: em tempos em que ninguém é obrigado a estar amarrado a alguém, nem submeter-se a qualquer relação, escolher casar-se me parece um ato revolucionário. É preciso muita ousadia e fé na vida para desejar viver ao lado de alguém. Compartilhar caras feias, mau humor matutino, falta de grana, impaciência, lágrimas, inseguranças; de fato, parece um plano suicida. Não é uma grande novidade que só o amor, única e exclusivamente, não sustenta uma relação. A gente precisa de muita afinidade, de doses cavalares de jogo de cintura, companheirismo, vontade de fazer dar certo, bom humor, capacidade de lidar com questões banais traiçoeiras… Enfim, a lista não deve ser curta e todo mundo tem um item para acrescentar a ela.
A verdade é que casamento virou quase um sinônimo de fracasso, mesmice, rotina esmagadora, tédio, falta de liberdade e de criatividade, curso extensivo sobre engolir sapos e sequelas. Talvez a vida que levamos hoje não nos dê muita paciência e vontade de dedicar-se a alguém. É possível que estejamos todos acelerados e tenhamos nos tornado consumidores ávidos: de produtos, de informações e de gente. Talvez o mundo ande raso demais. Poucos querem se dar o trabalho de, efetivamente, construir uma relação. E a expressão é justamente essa: “dar-se o trabalho”. Porque sim: envolver-se e manter-se em um relacionamento exige interesse e esforço. Olhar para o outro e enxergar alguém com quem se quer estar para além do imediato demanda, pelo menos, bastante boa vontade.
Eu sou da turma que acredita. Acredito que nada paga uma parceria para a vida. Nada compra a certeza de ter alguém para quem voltar no final do dia. Nada é tão bonito de se ver quanto um casal capaz de manter uma vida emocionalmente saudável, leve e prazerosa na maior parte do tempo. Sou da parcela que insiste em acreditar que casamento vale à pena, ainda que seja um projeto para destemidos. Ninguém precisa de ninguém para ser feliz, mas ter a chance de dividir felicidade com alguém é um privilégio que a vida pode oferecer.
Eu quero me casar com uma vida leve e boa. Com um grande amor. Com a chance de compartilhar uma história bonita de ser contada. Quero, como a colega do almoço, gastar o dinheiro com sapatos; embora não veja problemas em comprar potinhos para a cozinha. Descobri outro dia que a palavra “casamento” tem a mesma origem da palavra “casa”. Acho que é isso: ser casa, lar e morada. Inspiremo-nos!