UM AMOR PARA DOIS, POR FAVOR…

De repente ele chega. Invasivo, com o pé na porta. Inesperado, ainda que desejado. Violento, embora suave. Doce e, ainda assim, apimentado. Improvável e certeiro.
Ele tem cor, tem cheiro, tem gosto, tem trilha sonora. Muitas vezes tem nome e sobrenome. Cria memórias eternas em tempo recorde. O tempo corre diferente quando contado na medida dele.
Um dia ele explica toda a espera, as conversas longas e desacreditadas com a melhor amiga, os momentos de descrença, o gosto amargo herdado de uma velha história.
Ele vem sem receita, sem manual, sem bula, sem modo de usar. Revela-se em conversas despretensiosas e longas (sobretudo longas!), no riso que teima em ser frouxo e fora de hora, nos olhares que se encontram e se desviam.
É fatal. Beira a breguice. É um segredo mal guardado. É uma oportunidade.
Faz todos os clichês fazerem sentido. Explica Camões, Bandeira e Leminski. Enche-nos de coragens e medos. Desdiz nossas promessas. Obriga-nos a fazer novas.
Há quem diga que o amor chega para os distraídos. Discordo: há de se ter olhos bem abertos, ouvidos atentos e sensibilidade aguçada. Ele pode passar sem que nos demos conta.
Que ele possa ser “um descanso na loucura”, que beije os nossos rostos como brisa leve, que nos embale como um samba mansinho, que acolha nossas bagagens, que torne as nossas lentes sensíveis como as dos poetas, determinadas como as dos filósofos, curiosas como as das crianças.
E que, mais que tudo, seja para dois: para duas histórias, para duas vontades, para duas verdades. Que seja amor.