VOCÊ NEM SABE, MAS…

Você nem sabe, mas ontem, depois do último beijo de boa noite, você se ajeitou no canto da cama e adormeceu em menos de três minutos. Eu, que não tenho esse sono adolescente, perdi o meu e devo ter ficado acordada por quase uma hora mais. Foi tempo suficiente para observá-lo sem pressa: descabelado, entregue, acomodado entre o travesseiro e o edredom, como se eles sempre tivessem sido seus, como se aquele lugar pertencesse a você há muito.
Você nem sabe, mas eu, psicóloga de quinta e sabichona nata, tenho prazer especial em analisar você: a forma como sussurra baixinho os seus comentários impertinentes no cinema; o jeito como aperta os olhos no teatro; a maneira concentrada como caminha pela cozinha enquanto prepara uma receita; a mania de morder o canto da boca quando sorri. Admiro incansavelmente o carinho com que me puxa pela cintura para cheirar meu cabelo; os “eu te amos” fora de hora e o sorriso orgulhoso que me oferece por qualquer bobagem minha que você julga ser uma vitória.
Você nem sabe, mas me derreto ao ouvi-lo falar sobre viagens. Especialmente quando você fala demoradamente daquelas que vai fazer na minha companhia. Eu, que ainda quero conhecer o mundo, agora só penso que isso fará sentido com você. Precisamos fazer selfies em Paris, no Central Park, na Abbey Road. Há urgência em fazer “check-ins” em todos os restaurantes, teatros e exposições que iremos frequentar.
Você nem sabe, mas eu estou olhando você brincar com o cachorro, fazer graça com as crianças, planos com a família. Eu ouvi você falando do Natal e das férias de verão. Tenho que segurar o pensamento que vai longe quando calculo o tempo de que vamos precisar para realizar todos os planos que fizemos.
Você nem sabe, mas depois que você chegou, eu tenho aprendido a amar diferente e a vida, que já era boa, ficou uma delícia de ser vivida. As minhas tardes de domingo têm gosto de bolo de cenoura. As manhãs de sábado, de tapioca de queijo. As quartas têm cheiro de banho tomado e os feriados, de café fresco. É você quem me faz querer o que eu nem sabia que queria, ou ainda, estava certa de que não queria mais. As portas passaram a ficar sempre abertas e as janelas, escancaradas. A casa anda sempre repleta de música. E eu, uma cética do amor, tenho feito dos meus dias, um poema de Drummond, uma música do Chico, uma comédia blockbuster e tudo o mais. Tudo o que você nem sabe.