
Cantarolo um pouco de Gal Costa, meio tímida. Estou tentando assumir desinteressâncias para não repetir o roteiro clichê de “mostrar o meu melhor” transformando este encontro em mais um outdoor da minha “bacanice”. Estou mesmo meio cansada de colecionar selos de “aprovada” mas ir dormir sozinha. Estou bem entediada, pra ser honesta.
Você volta trazendo a cerveja gelada e eu tomo mais rápido do que deveria, meio nervosa. Te vejo me olhando com muito interesse. Nossa, eu não tinha reparado no quanto seus olhos são bonitos. Tagarelo sobre meus textos já que você os lê – de que planeta você caiu, hein?
Você paga a conta e eu reclamo. Você ri e diz que eu preciso aceitar ser bem tratada. Pergunta com que tipo de caras eu venho saindo, afinal, para estar achando isso grande coisa. Afaga suavemente meus cabelos cheios e me chama de leoa. Clichê, eu sei. Mas me arrepio mesmo assim.
Faço alguma piada sobre aquele filme cult para disfarçar que você me acertou em cheio. Tento me convencer que somos só mais duas pessoas tomando uma cerveja que não significa nada mais do que introdução burocrática para o adentramento das exigências físicas as quais nossa atração nos conduzirá impiedosa e rapidamente e só. Só mais um blablabla para que possamos suprir nossas carências físicas na cama, certo? Você não vai me ligar amanhã, não é?
Você me dá a mão e eu me assusto. Estamos em público. E se as outras meninas que você sai por acaso aparecem aqui e te flagram? Não acredito que eu quase perguntei isso! Não acredito que enfim naturalizei esse lance de todo mundo investindo em várias pessoas simultaneamente! Não aperto a sua mão de volta de tão desacostumada com esse gesto romântico em público mas você não solta da minha mesmo assim. E começa a falar sobre o que a gente poderia fazer no final de semana. Sorrio, desconfiada. Voltamos a rir dos clichês dos homens com seus carros.
Você coloca meu cabelo atrás da minha orelha com toda suavidade possível. Beija minha bochecha. Eu fecho os olhos e vou sentindo você beijar meu rosto, sussurar sobre a maciez da minha pele, segurar meu queixo, me puxar mais pra perto. Você enfim me beija. Eu nem tento procurar palavras. Acordo do transe com sua voz no meu ouvido: você é uma mulher incrível, sabia?
Enquanto me delicio com as palavras, você complementa: o que a gente vai fazer amanhã?